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Francesa, mas com sotaque brasileiro

PSA Peugeot Citroën investe em portfólio nacional para crescer mais rápido no Brasil

06 de setembro de 2010 | 0h 00
Alexandre Rodrigues - O Estado de S.Paulo

Desde 2000, quando instalou em Porto Real, no Sul Fluminense, uma de suas 16 fábricas no mundo, a francesa PSA Peugeot Citroën só vinha produzindo aqui modelos das marcas Peugeot e Citroën trazidos da Europa, como o 207, C3 e Xsara Picasso. O máximo de desafio à fábrica no Brasil era a chamada tropicalização, adaptações sutis em itens como suspensão e passagem de rodas.

Com o lançamento dos dois primeiros carros desenvolvidos especialmente para o mercado local neste ano, a montadora aposta numa nova estratégia para se livrar do rótulo de "newcomer" e crescer no País: aproximar-se do gosto do brasileiro.

Nos últimos três anos, engenheiros da companhia passaram a circular entre São Paulo, Rio e Porto Real carregando pastas com as inscrições T34 e AI58. Os códigos protegiam o sigilo do desenvolvimento da Peugeot Hoggar e do Citroën Aircross, os dois primeiros carros concebidos pela PSA no Brasil.

Os dois modelos também serão comercializados na Argentina, onde o grupo tem outra fábrica. Mas os executivos da companhia não escondem que a intenção mesmo é agradar aos motoristas brasileiros. Não foi à toa que escolheram dois dos segmentos mais concorridos do aquecido mercado nacional para começar.

A Hoggar é uma picape compacta, que chegou em maio para concorrer com a Strada (Fiat), a Montana (GM) e a Saveiro (VW) e vendeu 1,6 mil unidades desde então. É a única da PSA no segmento em todo o mundo, já que o modelo não é tão popular em outros países. Já o Aircross acabou de chegar às concessionárias. É um utilitário compacto, que tem como meta nada modesta levar 20% do mercado ocupado pelos bem-sucedidos EcoSport (Ford) e o CrossFox (Volkswagen).

Desafio. Os dois projetos não são isolados. Por trás deles estão pelo menos 300 profissionais contratados e investimentos de mais de R$ 800 milhões feitos pela PSA nos últimos quatro anos para criar uma usina de ideias no Brasil. A montadora quer lançar pelo menos dois novos carros por ano, um de cada marca, a maioria deles idealizada aqui.

"Não vamos parar por aí", avisa o português Carlos Gomes, novo presidente do Grupo PSA para a América Latina, que chegou à sede da companhia no Rio há pouco mais de um mês. A escolha dele para o lugar do francês Vincent Rambaud, que assumiu a direção mundial da marca Peugeot, é mais um componente da aproximação do grupo com o Brasil. Embora antes só tenha visitado o País duas vezes de férias, Gomes acredita que a língua o aproxima da cultura local.

Até se transferir para a PSA, Gomes era presidente e diretor geral da Fiat para França e Espanha, onde teve de lidar com uma queda nas vendas de até 50% por causa da crise. Ainda tomando pé das atividades do grupo no Mercosul, ele concorda que o cenário brasileiro de crescimento do mercado interno a reboque do aumento de renda e crédito é bem mais confortável. Mesmo assim, diz ver um duro desafio.

"Quando a onda está favorável, todo mundo vai nela e cresce. Nós precisamos ir além. E sabemos que muitos concorrentes estão se preparando para isso", disse Gomes ao Estado. Para ele, os novos modelos elevarão em 35% as vendas da PSA no Mercosul neste segundo semestre.

Quinta maior montadora no País, com 111 mil carros produzidos em 2009, a PSA tem apenas 5% do mercado. Para crescer mais rápido, quer formar um portfólio brasileiro na tentativa de se aproximar das líderes Fiat, Volkswagen, Chevrolet (GM) e Ford, velhas conhecidas dos brasileiros.

"Diferente de outros países, como a Argentina, o Brasil sempre foi mais fechado aos carros importados. Sentimos que, apesar de já estarmos há dez anos no Brasil, nossas marcas ainda são vistas como importadas", diz o diretor de produto para a América Latina, Michel Rougé. "A Europa continuará a ser o nosso principal mercado, mas queremos crescer em economias dinâmicas como China e Brasil. Para isso, nossa política de longo prazo é criar raízes nesses países."

Entre janeiro e julho deste ano, a subsidiária brasileira da PSA vendeu 91,6 mil unidades, 8,9% a mais do que no mesmo período de 2009. O diretor da Citroën no Brasil, Ivan Ségal, reconhece que o freio na produção em Porto Real no início de 2009 em meio à crise impediu a montadora de aproveitar a recuperação rápida do mercado brasileiro naquele ano. Mas garante que os projetos não foram afetados. Só a Citroën prepara três novos modelos até 2013.

Até lá, a PSA investe R$ 700 milhões em desenvolvimento e ampliação de capacidade no País. "Há três anos o Brasil já era estratégico para nós por seu potencial e não deixamos de acreditar nisso", diz Ségal, acrescentando que a montadora quer aprender a fazer carros para brasileiros. "Para o europeu, conta mais a performance. O brasileiro dá muita importância ao design, ao status que o carro vai proporcionar. E gosta muito de acessórios", define. "Ter muitos brasileiros na equipe foi essencial. Como francês, procurei não opinar muito", diz Segal.

A NOVA "TROPICALIZAÇÃO"

Ford EcoSport
O veículo da Ford foi criado por engenheiros brasileiros com a participação de profissionais dos Estados Unidos. Uma nova versão está em desenvolvimento em Camaçari (BA).

Novo Uno
A Fiat considera o modelo o primeiro carro 100% brasileiro. O desenvolvimento foi baseado em uma pesquisa feita com 800 pessoas, envolveu 600 profissionais e custou US$ 600 milhões.

Agile
Uma picape derivada do Agile será lançada pela GM nas próximas semanas. A montadora também está ampliando a fábrica de São Caetano do Sul para dar conta de novos projetos.

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