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LUIZ ZANIN

Futebol cabeça

21 de fevereiro de 2012 | 3h 05
LUIZ ZANIN - O Estado de S.Paulo

O Palmeiras está em primeiro lugar no Paulistão e todos conhecem a sua principal jogada, a bola parada de Marcos Assunção. Seja batendo um escanteio, chutando direto a gol ou cobrando faltas e levantando a bola para seus companheiros na área adversária, Assunção tem sido decisivo para o Palmeiras.

Embora nem todo mundo tenha o seu "Assunção", o recurso tornou-se generalizado no futebol brasileiro. Não é de hoje, convenhamos. No passado recente, o São Paulo cansou de ganhar jogos - e títulos - com as bolas levantadas de Jorge Wagner. O técnico era Muricy Ramalho, hoje no Santos.

O curioso com a "bola parada" é que, quem sofre o gol costuma dizer que houve falha. Quem faz, elogia a habilidade técnica do cobrador ou o êxito da jogada ensaiada. No futebol, como em outras coisas da vida, as verdades são relativas. O que não quer dizer que não possamos ter algum ponto de vista objetivo para analisá-lo.

Em seu ótimo livro O Universo Tático do Futebol - Escola Brasileira, o técnico Ricardo Drubscky dedica um capítulo ao estudo da origem dos gols. Os gols podem acontecer de várias formas: por mérito tático de quem ataca, por jogadas individuais, por erros da defesa, etc. E também pelas benditas bolas paradas. Analisando gols de várias competições e cruzando resultados, Drubscky notou que 34,5% dos gols da Copa da França (1998) se originaram de bolas paradas. No Campeonato Brasileiro do mesmo ano foram 30%. E, na Copa da Coréia-Japão (2002), vencida pelo Brasil, 33,5% dos gols se originaram de jogadas desse tipo.

Números notáveis, não? E que, de certa forma, relativizam aquela certeza mais imediata - a de que só agora o futebol brasileiro resolveu apostar nesse tipo de jogada como forma de compensar sua deficiência técnica crescente. A ideia é que começamos a depositar nossa fé nas bolas paradas porque não sabemos mais trocar passes como antigamente e os craques que resolvem jogos sozinhos em lances geniais são cada vez mais raros nos nossos gramados. Quem há de negar essas evidências?

Mas cabe fazer outra pergunta: se isso acontece há mais tempo, por que só agora começamos a nos espantar? Tenho uma teoria: como todo mundo está jogando mais ou menos do mesmo jeito, o futebol caminha para uma monotonia progressiva. Acabamos nos habituando a ela. Ou seja, ficamos embotados. Antes era mais fácil distinguir escolas e tendências. Os ingleses davam chutões, os italianos eram implacáveis na marcação, os holandeses brilhavam no conjunto e os sul-americanos resolviam na base de individualidades insuperáveis. Na geleia geral do mundo globalizado tudo se misturou e qualidades se mesclaram.

Só despertamos do nosso sono quando algum time de exceção brilha nesse mundo cinzento. Há o caso breve do Santos do primeiro semestre de 2010 e o fenômeno mais permanente do Barcelona. Essas exceções, para serem exemplares, precisam encantar e vencer. Sem títulos, nada feito. Como os números sugerem, o mundo da bola anda chato há muito tempo.

O Barça é prova de que outro futebol é possível.



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