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Gal Costa se entrega à linguagem em evolução de Caetano Veloso

Cantora rompe com tudo o que fez depois do tropicalismo e começa a mostrar no palco o resultado

22 de março de 2012 | 3h 10
JULIO MARIA / RIO - O Estado de S.Paulo

Caetano, Gal e Moreno Veloso falaram ao 'Estado' sobre 'Recanto' - Marcos de Paula/ AE
Marcos de Paula/ AE
Caetano, Gal e Moreno Veloso falaram ao 'Estado' sobre 'Recanto'

É como um samurai que Gal Costa se entregou aos serviços de Caetano Veloso. Mesmo quando tudo ficava tosco, duro, fora dos padrões, ela confiava. "Sempre foi assim", diz, lembrando da tropicalista canção de Caetano Divino Maravilhoso gravada por ela pouco tempo depois de se lançar com o amigo em Domingo, de 1967. Sempre foi assim mas agora foi mais. Gal, em Recanto, lançado em dezembro, deixou uma classe inteira de cantoras jovens ou maduras falando sozinhas (muitas delas a imitando) para provocar o rompimento mais radical com tudo o que fez depois do tropicalismo.


A partir de hoje, Gal começa a mostrar o disco nos palcos. Dirigida por Caetano e produzida por Kassin, Recanto é frio e escuro, de silêncios e intervenções eletrônicas duras e rítmicas que deixam a voz de Gal em uma solidão de dar arrepios, como se estivesse sempre em oração. Ela própria chora quando canta a música que batiza o disco e o show. A estreia da turnê será hoje, para convidados, e a partir de amanhã para o público do Rio, na nova casa de shows Miranda, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. A São Paulo, a previsão de chegada é em abril. Apesar do estranhamento que poderia causar, o disco vendeu 25 mil cópias desde dezembro. O repertório, além de sete canções novas, terá Baby, Divino Maravilhoso e Vapor Barato. Caetano, Gal e Moreno Veloso, coprodutor do disco, receberam o Estado na plateia da casa de shows que vão inaugurar. Enquanto o repórter coloca a fita cassete no gravador analógico, Caetano começa:


Caetano: Gravador digital é um inferno, você não sabe como volta, não acha o lugar onde estava. Sempre que componho também uso esses analógicos.


Não é o que parece quando se ouve o disco da Gal...


Na verdade, eu fiz tudo para a Gal no GarageBand (software da Apple). Não só as composições como as sugestões da base, tudo. Há bases como a de Miami Maculelê, que tem aquele tum tá tá tum tum tá / tum tá tá tum tum tá.


Tudo no GarageBand?


Moreno: Mas, cá pra nós, aquele tum tá tá tum tum tá é um sobrevivente do GarageBand que passou na mão do Kassin, que meteu seus equalizadores analógicos e melhorou muito aquilo.


Gal, não é um exercício difícil abrir mão de suas convicções estéticas e se entregar para as ideias de outro artista?


Gal: Difícil o quê? Cantar as músicas do Caetano não é difícil. Caetano me propôs isso também porque ele sabe que eu gosto de desafios, que eu gosto da estranheza. Começou lá atrás com João Gilberto quando eu ainda era adolescente. Caetano sabia que eu ia encarar isso.


Fala-se muito sobre uma mudança de postura na canção, de que aquele formato está em crise. O novo disco da Gal fragmenta tudo e deixa a voz sozinha, praticamente sem harmonia que a sustente. Uma coisa tem a ver com a outra?


Caetano: Eu não sei se isso tem a ver com o chamado fim da canção. O Chico Buarque é quem gosta dessa ideia de que o ciclo da canção se esgotou, de que a canção está em vias de morrer. Eu tenho muita dificuldade em acreditar nisso porque a canção existe desde muito tempo. A estrutura social e estética que sustentou o nascimento do disco e da canção está se desfazendo com a difusão digital, mas a canção existe, mesmo com todas essas ferramentas que temos aí.


Tipo GarageBands....


Caetano: Sim, com a internet a estrutura da canção se desfaz, mas havia canção mesmo antes de haver disco e sempre haverá alguma coisa que a gente poderá chamar de canção. Não quer dizer que a canção vá acabar.


Recanto é um disco de Caetano Veloso ou um disco de Gal Costa?


Caetano: Então eu lhe pergunto: sobre o Canção do Amor Demais (álbum de 1958 com músicas de Tom e Vinícius cantadas por Elisete Cardoso, com violão de João Gilberto, considerado o ato inaugural da bossa nova), a Elisete é coadjuvante? Eu acharia errado dizer isso. Eles compuseram tudo para ela.


E você compôs tudo para a Gal. Isso é diferente de compor para si mesmo?


Caetano: É diferente. Quando componho para ela eu penso nela, como a conheci, as coisas que ela me disse, como tanta coisa se deu sem a gente se falar. Hoje a gente se fala mais, como aqui e agora, eu tenho ouvido coisas dela que tenho adorado. Fiz as canções sem medo. Ela me disse que a música que mais a emocionou foi Recanto Escuro. Agora, a melhor canção é Tudo Dói, é mais radical mais é a mais João Gilberto. Ela me disse isso, entendeu? Isso para mim vale mais do que tudo.


E Gal, você ainda chora quando canta Recanto Escuro?


Gal: Ontem mesmo eu chorei no ensaio. Cheguei com essa energia de show se aproximando e começamos sem Caetano e sem Moreno. E os meninos tocando comigo e eu cantando e sentindo de verdade. Caetano chegou e aí eu chorei. Não consigo cantar quando eu choro, minha voz vai para o beleléu.


Vocês tiveram quase que um namoro lá atrás. Vem daí esse entendimento?


Caetano: É muito entendimento mas a gente nunca teve esse negócio de namoro não. Quando eu conheci Gal eu conheci Dedé, e eu quis namorar a Dedé logo. E namoramos, e ela era a maior amiga de Gal.


Gal: Nossa relação de amor é musical.


Não é obrigação de cantor consagrado lançar novos compositores?


Caetano: Não, ninguém é obrigado a nada.


Gal: Ah, eu recebi um material de um compositor novo chamado Caetano Veloso.







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