Na Noruega, gastos com educação são prioridade

Petróleo pode deixar de ser lucrativo em 2025 e governo tenta se antecipar

Jamil Chade, enviado especial, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2014 | 02h09

Apesar da situação mais que confortável, a Noruega já começa a pensar no futuro. Holmoy admite que o petróleo no Mar do Norte pode deixar de ser lucrativo já em 2025. Oslo ainda poderá contar com a renda do gás natural por cerca de cem anos. "Mas não há dúvidas de que os ingressos vão cair." A prioridade até lá são os gastos com educação, e a meta é a de preparar uma nova geração que não dependa dos recursos naturais, mas sim dos recursos humanos, tecnologia de ponta e inovação.

Em 40 anos, o número de funcionários públicos nas escolas dobrou. "O Estado garante a educação de uma pessoa por 13 anos", explicou Holmoy. A educação elevada também permitiu que o número de jornais seja elevado. Para uma população de apenas 5 milhões de pessoas há 280 jornais em circulação, o índice mais alto do mundo, ao lado do Japão.

Mas com apenas 5 milhões de pessoas, a Noruega sofre com a escassez de profissionais em praticamente todas as áreas e, mesmo recebendo 50 mil imigrantes a cada ano, o déficit continua. O petróleo monopolizou todos os 50 mil engenheiros e o governo estima que, até 2016, faltarão 6 mil engenheiros na Noruega para permitir que a economia continue a se desenvolver.

Em 2013, a principal empresa de serviços de energia, a Aker, abriu vagas para 4 mil funcionários, mas apenas um terço foi preenchido por noruegueses. A empresa decidiu criar centros de treinamento na Indonésia e Índia para não ficar sem mão de obra qualificada.

Outro problema que terá de ser tratado é o da produtividade. A combinação de ser uma Arábia Saudita com benefícios sociais escandinavos também passou a comprometer a competitividade. Em 30 anos, os noruegueses reduziram suas horas de trabalho em 270 horas, ganhando mais de dez dias de férias ao ano. Parte significativa dos trabalhadores já consegue trabalhar apenas quatro dias na semana e o Banco Central chegou à constatação de que muitos já começam a abandonar o mercado de trabalho, diante da elevada renda do marido ou esposa, suficiente para manter a família com altos padrões.

O governo anunciou no final de 2013 que o país teria de trabalhar 10% mais do que hoje, sob risco de começar a consumir suas reservas, antes mesmo de o petróleo acabar. Enquanto as horas trabalhadas despencaram, os salários médios aumentaram 60% em 15 anos. "Hoje, a renda média de um norueguês é 47% superior ao da média europeia", diz Holmoy.

Os custos já começam a afetar até mesmo a capacidade de empresas nacionais de competir no próprio país. Recentemente, a Kvaerner perdeu uma licitação para a Daewoo, que oferecia equipamentos para plataformas de petróleo a um preço bem inferior. Já a Norwegian Air Shuttle passou a contratar comissárias de voo asiáticas para fugir dos altos salários das norueguesas.

Outro desafio, segundo analistas, é permitir que a prosperidade continue a gerar "paz social", e não seja fator de divisão. Até pouco tempo, Oslo era marcada por uma população discreta. Mas é cada vez mais comum ver pessoas com estilo de vida extravagante, em parte estrangeiros que passaram a ganhar muito com o petróleo. Estudos oficiais alertam que o consumo de drogas explodiu e um sentimento xenófobo de parte da população permitiu até que partidos de extrema-direita dessem os primeiros sinais de força.

Mais conteúdo sobre:
economia global

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.