Governo tenta isolar radicais na Confecom
Acordo garante aprovação de propostas dos empresários
Para evitar a implosão da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), o governo e as entidades sindicais mais fortes, como Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical, uniram-se à Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra) e mudaram as regras do encontro, em uma tumultuada assembleia que durou pouco mais de duas horas e impediu os debates na manhã de ontem. A maioria das teses do evento defende o controle social dos meios de comunicação, com forte intervenção do setor público na iniciativa privada.
A Confecom entrou num estado de impasse no momento em que era votado o regimento geral. Um grupo tentou inviabilizar as teses dos setores empresariais que permaneceram na conferência - grupos Bandeirantes e RedeTV, pela Abra, e a Telebrasil, que congrega as empresas de telefonia fixa e móvel.
O vice-presidente da TV Bandeirantes, Walter Ceneviva, ameaçou deixar a conferência, alegando que havia um golpe em curso comandado pelos setores mais radicais, contrários à participação da iniciativa privada na radiodifusão. O mesmo grupo havia tentado tirar a expressão "empresarial" da definição do segmento, dizendo que os empresários não podiam ser qualificados de "sociedade civil".
A forma encontrada pelo grupo radical para impedir a aprovação das teses dos empresários foi a mudança para maioria simples do quórum de votação das propostas nos grupos de trabalho. Esses grupos farão a sistematização das mais de 6 mil propostas, para reduzi-las a 150. Com maioria simples, a ala radical teria o domínio da agenda. No momento da confusão, governo e entidades sindicais fortes acionaram seu aparato, fizeram um acordo com os empresários e puseram de lado o outro grupo.
LEGITIMIDADE
Figuras que trabalham nos bastidores, como Ottoni Fernandes Júnior, secretário executivo da Secretaria da Comunicação do Governo (Secom), Celso Schröeder, vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Gerson Almeida, da Secom, e Rosane Bertotti, da CUT, tomaram o microfone, anunciaram um acordo e disseram que tinham de respeitar ali a pregação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite anterior, de que a Confecom tinha de buscar legitimidade. Frisaram que isso só seria possível com a presença dos empresários.
Houve muita discussão. O grupo dos radicais, isolado, gritou palavras de ordem, mas de nada adiantou. Feita a votação, tiveram uma derrota acachapante.
Coube ao empresário Renato Rovai, dono da revista Fórum, fazer a proposta vencedora. Ficou estabelecido que cada grupo de trabalho garantiria quatro propostas dos sindicatos e das ONGs, quatro dos empresários e duas do governo.
Entre as teses da Abra estão as que propõem maior desconcentração das empresas de radiodifusão - o que garante certa adesão dos setores mais à esquerda, que querem tirar poder dos grandes conglomerados, como Globo, Record, SBT e RBS -, e um combate sério às rádios piratas. Essa segunda proposta não é vista com simpatia, pois as piratas têm defensores na Confecom. Tentaram até arrancar de Lula um compromisso de que não serão importunadas, mas o presidente cobrou legalidade.
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