'Hoje, o conflito é século 20 versus 21, diz Fabio Feldmann

Para o consultor, é preciso que a sociedade mude sua visão de mundo

O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2012 | 03h08

O resultado da Rio+20 é um mistério. Só se sabe que o encontro está pautado sob o tema The Future We Want - o futuro que a gente quer. Fabio Feldmann, consultor e ex-candidato ao governo do Estado pelo PV, acha que o atual formato da reunião pode transformá-la num desperdício. "Se nada mudar, tende a ser um fracasso", avisou em conversa com a coluna.

Para o antigo ambientalista, um dos fundadores da SOS Mata Atlântica, está faltando liderança. Inclusive de Dilma, que ele diz ter visão atrasada sobre o tema. "Eu me coloco nos chinelos da presidente. No momento em que alcanço o maior cargo do Brasil, quando o País está bombando no mundo inteiro, minha preocupação é com o meu legado. Se ela tiver isso em mente, tenderá a liderar a Rio+20 na direção correta", pondera.

O Brasil quer entrar no Conselho de Segurança da ONU? "É só se sair bem na Rio+20 que entra", receita. E defende uma visão diferente de mundo. "Em toda palestra que faço, eu digo: o conflito não é mais o de esquerda e direita, da nossa geração. O conflito, hoje, é século 20 versus século 21".

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que você resolveu escrever Sustentabilidade Planetária: Onde Eu Entro Nisso?

Apesar de o tema estar na boca das pessoas, é grande a dificuldade em mobilizar a sociedade. Quis atrair o leitor para nossos temas de maneira compreensível. Por isso o livro é bastante baseado no que a comunidade científica está falando.

Não há como falar pela razão? Essa é a loucura. A ciência, que é a razão objetiva, está demonstrando o que tem de ser feito. Não é falta de razão e de ciência, a dificuldade é como convencer as pessoas de maneira geral. O maior problema do político é que ele pensa a curto prazo. Eu estou na minha fase de neurociência. Agora existe toda uma área de economia ligada à neurociência. E como convencer as pessoas usando neurociência? Com flexibilidade e plasticidade. A missão já não é convencer na racionalidade (porque, nesse sentido, os dados estão a nosso favor), mas engajá-las com emoção. Essa é a discussão do livro.

O ser humano é mais reativo que pró-ativo. Especialmente, governos. Nosso planeta precisa ser destruído para que as pessoas tenham consciência do seu estado hoje?

Note que a piora ambiental não acontece linearmente. E isso preocupa muito. Hoje existe o que a gente chama de tipping point, expressão do Malcolm Gladwell: em determinado momento, você tem uma mudança maior. E nas questões ambientais haverá um ponto de mudança. Tenho certeza. Não é terrorismo.

Está se prevendo que a Rio+20 seja um fracasso...

Copenhagen foi, Cancún também. E aí vem a surpresa. A reunião de Durban foi muito positiva, ninguém imaginava que pudesse avançar como avançou. A sociedade não se comporta linearmente. Às vezes, acontece um fato aqui, outro ali, que, juntos, provocam mudanças. Acredito que teremos essas mudanças, até porque a ciência mostra que os limites estão colocados. Isso significa que o mais importante em relação aos nossos temas é o senso de urgência.

Fala-se que, em Durban, o avanço não foi tão grande. Porque os EUA não cederam, não reconheceram o Protocolo de Kyoto. Já a China se recusa a avançar enquanto os EUA não avançarem.

A China mudou radicalmente. Os chineses são muito misteriosos na condução de negociações, não são lineares. Em Durban, eles deram um baile. Fizeram um modelo detalhado de quanto e onde têm de investir para ajudar na redução do aquecimento global - até porque estão preocupados. Se não agirem rapidamente, as emissões da China serão maiores do que as dos EUA e da Europa juntos. Fiquei muito impressionado. Não vi nos outros países, inclusive no Brasil, esse preparo dos chineses.

Mas adianta, sem os EUA?

No caso de Cancún, o risco era abortar as negociações internacionais. Em Durban, ficou decidido que será mantido o Protocolo de Kyoto, que já era uma grande discussão. Então, acho que haverá uma alteração grande com a China mudando.

A China é um tipping point?

Sim. Aliás, tenho defendido que nossas questões vão mudar no próprio mercado, produtos e serviços serão cada vez menos intensos em água, em carbono e em energia. Esse processo é irreversível. A questão é se haverá tempo, porque os prazos são muito curtos. Aliás, nesse campo do consumo, o que está se discutindo hoje é onde você contabiliza o carbono. O Brasil exporta para a China; na produção de bens e serviços brasileiros, o carbono é contabilizado aqui. Acho que a tendência será contabilizar onde consomem, porque é mais justo. A Inglaterra está diminuindo as emissões, mas porque transferiu parte de sua manufatura para a Ásia.

E essa ideia de cobrar imposto? Por exemplo, uma hidroelétrica que vai prejudicar o rio. Quem usa a energia dessa hidroelétrica pagaria uma taxa.

É o que os economistas chamam "incorporar as externalidades negativas ao preço". Para mim, economia verde é você colocar no preço de serviços e bens o quanto eles custam para a natureza, para o meio ambiente. Mas não é só taxa. E aí eu acho que o setor empresarial tem um papel muito grande. A taxa pressupõe que é o poder público que está criando. Se eu crio mecanismos de certificação que passam a ser adotados, posso incorporar isso sem, necessariamente, a intervenção do Estado. Sou a favor da taxação. Até escrevi sobre a questão do diesel. O diesel bom, que é o S-50, custa até 30% mais do que o outro diesel. Então, o que faz o caminhoneiro autônomo? Ele compra o diesel ruim. Quem vai pagar somos nós, que respiramos um ar pior, e o SUS, com os problemas broncopulmonares. O que eu proponho? Taxar o diesel ruim e diminuir o preço do diesel bom.

Para equalizar.

Isso é instrumento para a economia verde: o produto que tem menos impacto passa a ter imposto menor do que o produto com mais impacto. Com isso, você pode trabalhar em muitos sentidos. Por exemplo, obesidade: o produto com mais açúcar devia ser mais caro do que o produto com menos açúcar. A Califórnia está adotando esse regime, taxando os refrigerantes. Faz todo o sentido, porque gera tributos para financiar o que esses alimentos (que prejudicam a saúde) custam à sociedade. No caso brasileiro, custa para o serviço público de saúde. Proponho aliança do setor empresarial com a sociedade civil e os líderes governamentais com mentalidade do século 21.

Qual a chance de uma política dessas ser implantada aqui?

Se a Rio+20 for no modelo da Rio-92, modelo ONU, dificilmente vamos avançar. Acho que a Dilma devia, como anfitriã, chamar os líderes empresariais mais importantes do mundo, a sociedade civil e outros chefes de Estado para ter uma conversa franca nessa direção. Como é o formato das Nações Unidas? Tem três minutos para a sociedade civil e três minutos para o setor empresarial. É absolutamente ineficiente. O caminho da sustentabilidade é a capacidade política, no bom sentido, de aliança.

No caso da Califórnia, é o consumidor que está exigindo.

Qual é o desafio? Aumentar o repertório das escolhas. Porque a política migrou para o consumo. Quando você escolhe um móvel certificado, por exemplo, essa escolha é política.

Vai pagar mais caro por ele.

Existe o mito de que o produto tem de ser mais caro. Acho que não. Se for mais caro, você usa instrumentos econômicos para diminuir o preço.

Por que a bancada verde no Congresso diminuiu?

Acho que falta uma estratégia clara para aumentar a bancada dos ambientalistas, inclusive junto a um eleitor que está cada dia mais urbano. Além disso, o outro lado se preparou muito para nos enfrentar.

Por que há uma tendência a desqualificar o ambientalismo?

Porque ele cria situações de conflito concretas, fáceis de identificar. Qual a dificuldade do aquecimento global diante da ciência? Eu estou enfrentando, em primeiro lugar, a indústria de petróleo, que é importante no mundo inteiro. Não é por nenhuma outra razão que ser presidente da Petrobrás é mais importante do que ser ministro de Estado. Acho que a dificuldade das nossas questões é que elas enfrentam interesses muito concretos, que beneficiam um conjunto de pessoas que é muito fácil de ver.

O petróleo beneficia diretamente o consumidor.

Por isso, a gente tem de criar alternativas para esse consumidor. Se você tiver um automóvel que possa rodar com combustível melhor e de mesmo preço, a gente consegue...

É consciência ou bolso?

Os dois. Se eu tenho um produto melhor, por que esse produto não pode ser mais competitivo com a diminuição de imposto? O presidente do Business Council of Sustainable Development me disse certa vez: "Fabio, quando entrar numa reunião, veja se você é vendedor ou comprador. Porque o comprador está sempre em vantagem psicológica em relação ao vendedor".

E os ambientalistas têm se vendido de maneira correta?

Ambientalista é, hoje, um rótulo muito elástico, diferente do que era há 30 anos. Por isso, o ambientalismo está diante de uma tarefa: se reinventar. Por que, às vezes, a gente enfrenta dificuldades? Porque, muitas vezes, as explicações não são lineares. Você diz que algo vai acontecer, e não acontece. Veja a questão do aquecimento global. O tema é complexo, mas acho que o setor empresarial é outro hoje. Dificilmente uma empresa de nome não está preocupada com a gestão ambiental, é uma questão da comunidade. Avançar nisso exige ainda mais tempo.

Por exemplo, no caso de Belo Monte, a questão que se coloca é destruir a natureza ou ficar sem energia elétrica...

Os dilemas são complicados. Você me pergunta se sou contra a energia nuclear: sou contra. Mas o combustível fóssil contribui para o aquecimento global. Então, do que sou a favor? Acho que a coisa vai se resolver por uma revolução tecnológica no mercado, equipamentos cada vez mais eficientes e uma mudança de comportamento. Qual a minha preocupação nesses últimos anos? Eu já fui tudo: ONG, governo, parlamentar. O grande desafio é mobilizar as pessoas, ganhá-las pelo coração, pela emoção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.