'Igreja da boa notícia' comemora 200 anos no centro

Vizinho ao templo erguido em 1810 em taipa de pilão, Sesc Carmo promove amanhã visita guiada pela Nossa Senhora da Boa Morte

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2010 | 00h00

 

A Igreja Nossa Senhora da Boa Morte - conhecida no século 19 como "das boas notícias" - comemora 200 anos. Depois de quermesse, procissão, novena e missa, já ocorridas no início do mês, amanhã, às 11h, haverá um passeio monitorado para quem quiser conhecer o interior e a história do templo do centro de São Paulo. A atividade, promovida pelo Sesc Carmo - cuja sede fica a poucos metros do templo -, pega carona nas festividades do segundo centenário da igreja.

"Somos vizinhos (o Sesc e a igreja), então não podíamos ficar de fora dessa comemoração", explica a coordenadora de programação do Sesc, Débora Teixeira. "Serão apresentadas a história da igreja e a importância do barroco paulista." Para tanto, estão convidados o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Percival Tirapeli, autor de, entre outros livros, Igrejas Barrocas do Brasil; e Tobias de São Pedro e Ana Luiza Martins, representantes da unidade de Patrimônio Histórico da Secretaria de Estado da Cultura.

História. Construída em 1810 em taipa de pilão e adobe (tijolos de terra batida), a igreja que fica a uma quadra da Praça da Sé entrou no terceiro milênio bastante degradada - e teve de ser fechada em 2005. Entre outros problemas, seu teto ameaçava ruir e o madeiramento estava tomado por cupins.

No ano seguinte, começou a ser restaurada - uma obra cheia de minúcias, que duraria três anos, envolveria 60 profissionais e consumiria R$ 6,5 milhões. Reaberta em julho do ano passado, a igreja - tombada pelos órgãos estadual e municipal de proteção ao patrimônio - foi assumida pelos religiosos da Aliança da Misericórdia, associação com trabalhos sociais voltados à população carente.

"O importante é que, de dez anos para cá, as igrejas históricas estão sob um intenso olhar dos intelectuais e dos órgãos de proteção ao patrimônio", afirma o professor Tirapeli. "Não à toa, todas passaram ou estão passando por bons restauros."

Durante o trabalho de restauração, foram retiradas 10 toneladas de madeira podre. E descobertas algumas surpresas - entre as quais, uma pintura barroca da Virgem Maria, escondida sob camada de tinta cinza no forro de madeira sobre o altar. Treze imagens sacras também foram restauradas.

Simplicidade. Ao contrário do exuberante barroco mineiro, em São Paulo as construções dessa época não eram carregadas de luxo. Principalmente porque, longe das minas de ouro, por aqui não havia muito com o que se gastar. "A igreja em si já nasce pequena e não tem nenhuma importância, em termos de riqueza, de um barroco mais requintado", observa Tirapeli. "Mas a partir de 1913, quando quase todas as igrejas próximas dela foram derrubadas, ela passa a ser uma referência daquela época."

De acordo com o especialista, não há igrejas paulistanas desta época com "estilos puros". Todas mesclam diferentes escolas arquitetônicas. "Um pouco barroco e muito mais rococó, que na realidade já estava passando... A passagem do barroco para o rococó aconteceu aqui com 50 anos de atraso", comenta.

Antes da morte. Ao longo do século 19, acredita-se que a igreja tenha sido parada obrigatória de escravos condenados à forca - a execução costumava ocorrer próximo de onde hoje é a Praça da Liberdade, no centro.

De acordo com a tradição religiosa, era recomendável pedir a Nossa Senhora da Boa Morte, como o próprio nome sugere, uma "boa morte".

No século 19, o templo era conhecido como "a igreja das boas notícias". Isto porque, como se localizava à entrada daqueles que vinham do Ipiranga em direção à cidade, seus sinos repicavam para anunciar novidades - bem como a chegada de forasteiros, já que de sua posição geográfica privilegiada era possível avistar antes os que chegavam da Serra do Mar. Reza a lenda que foi por meio de seus sinos que, em 1822, o imperador d. Pedro I foi saudado pela cidade, logo após proclamar a Independência do Brasil.

NOME DA IGREJA

Nossa Senhora da Boa Morte é um dos títulos católicos dados à Nossa Senhora. Há inúmeras igrejas dedicadas a ela ao redor do mundo - no ano de 1661, em Lombo do Atouquia, freguesia de Calheta, Portugal, já existia uma capela de Nossa Senhora da Boa Morte. No Brasil, a veneração à santa foi trazida pelos portugueses e são famosas as igrejas com seu nome na Bahia, em Salvador e em Cachoeira.

Por aqui - não se sabe se causa ou consequência do nome - acredita-se que, no século 19, o local era parada dos escravos condenados à forca. Eles passavam ali para pedir à santa uma "boa morte".

Serviço:

BARROCO PAULISTA - VISITA À IGREJA NOSSA SENHORA DA BOA MORTE; RUA DO CARMO, 202. GRÁTIS (É PRECISO SE INSCREVER ANTES). AMANHÃ, ÀS 11H. INFORMAÇÕES: 3111-7000

 

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