Irmã de 'mártir' diz faltar justiça e tolerância
Quando a dona de casa Benedita Julia Eusébio Rodrigues, de 49 anos, passeia com a filha Viviane, de 29, evita manifestações de carinho. Andar de braços dados nem pensar, para não parecerem lésbicas. O trauma começou há dez anos, quando o irmão de Benedita, o adestrador de cães Edson Néris da Silva, foi assassinado por skinheads na Praça da República, centro de São Paulo, quando andava de mãos dadas com o companheiro. Edson, aos 35 anos, foi espancado até a morte. Tornou-se mártir e símbolo da comunidade LGBT na luta pela criminalização da homofobia.
As feridas abertas naquele 6 de fevereiro de 2000 ainda são latentes na vida da família. Ficou em especial o sentimento de que não há Justiça. Os 17 skinheads que estavam no grupo foram presos. Alguns ficaram poucos anos cumprindo pena por formação de quadrilha. Nove foram condenados por homicídio e pegaram penas variadas - 15, 16, 19, até o máximo de 21 anos. Só um segue preso respondendo por outro crime. Os demais foram soltos em razão de progressões.
Benedita afirma que as lembranças a deprimem de vez em quando. Em especial quando há novos casos de violência homofóbica, como os recentes casos da Avenida Paulista. "A intolerância hoje é a mesma ou até maior do que há dez anos. Tem até jovens que não são skinheads, mas compartilham as ideias deles. É triste."
Alegria. Apesar da mágoa, Benedita prefere lembrar de momentos de alegria com o irmão Tione - apelido de Edson. Como quando cruzava a Região Metropolitana, de Itapevi até Ferraz de Vasconcelos, onde ela mora, para jogar conversa fora. "Ele fazia uma limonada, sentávamos na cozinha após a meia-noite e ficávamos falando por horas."
Edson era brincalhão e sempre sorria, "ainda que tivesse todos os problemas do mundo", conta. Havia sido casado, mas dizia que nunca poria filhos no mundo para sofrer. Nunca comentou com os familiares o fato de ser ou não ser homossexual.
Era apaixonado pela natureza e pelos animais. No dia em que morreu, havia passeado com a mãe em um sítio. Saiu à tarde dizendo que visitaria um cliente. À noite, por volta das 23h, telefonou dizendo que voltaria. Pouco mais de uma hora depois, outro telefonema, do hospital, dava conta da morte dele. Dez anos depois, a irmã Benedita é uma das grandes entusiastas da criminalização da homofobia.
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