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Irritado, Lula lamenta morte de dissidente cubano em greve de fome

Presidente diz não ter recebido carta de grupos opositores com pedido para que intercedesse por presos políticos

25 de fevereiro de 2010 | 0h 00
Tânia Monteiro, ENVIADA ESPECIAL, HAVANA - O Estadao de S.Paulo

ENCONTRO - Lula visita Fidel (E), acompanhado de Raúl (D): para brasileiro, ex-presidente está recuperado


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva irritou-se com as informações de grupos de direitos humanos, segundo as quais pediram uma audiência a ele para que intercedesse junto ao governo cubano em favor do preso político cubano Orlando Zapata Tamayo, que morreu na terça-feira após 85 dias de greve de fome. "Se tivessem pedido pra conversar comigo, eu teria conversado com eles e qualquer presidente teria conversado. Não nos recusamos a conversar", disse Lula. Ele afirmou que não recebeu nenhuma carta ou pedido para intermediar o caso e, se tivesse recebido, talvez pudesse ter procurado Zapata e evitado a morte dele porque é contra a greve de fome.

Lula, na verdade, esquivou-se de comentar as acusações de violações dos direitos humanos em Cuba e a prisão de ativistas políticos no país, limitando-se a responder o fato de não ter recebido o pedido para intermediar a questão. Questionado sobre se não era ruim para sua biografia não condenar as prisões políticas, Lula disse que sua solidariedade não pode ser questionada e voltou a fazer críticas aos dissidentes.

"Temos de lamentar, como ser humano, sobre alguém que morreu porque decidiu fazer greve de fome, que vocês sabem que eu sou contra porque fiz greve de fome", afirmou Lula. "Se essas pessoas tivessem falado comigo antes, eu teria pedido para ele parar a greve e quem sabe teria evitado que ele morresse. Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome."

O presidente lembrou a sua experiência de quando fez greve de fome e avisou que nunca mais faz isso. E fez um alerta aos ativistas: "As pessoas precisam parar com o hábito de fazer cartas, guardarem para si e depois dizerem que mandaram para os outros. Quando uma pessoa manda uma carta para um presidente, no mínimo, só pode dizer que o presidente a recebeu se protocolar a carta."

O assessor internacional do presidente, Marco Aurélio Garcia, disse que a carta não chegou a Lula nem houve pedido de audiência. "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro", declarou. O governo evita abordar questões delicadas de países que considera amigos.

O presidente cubano, Raúl Castro, por seu lado, lamentou a morte do ativista e responsabilizou os EUA por ela. O cubano disse-se disposto a conversar com Washington sobre "tudo", mas em igualdade de condições. "Lamentamos muito. Ele (Zapata) foi sentenciado a 3 anos por ter causado problemas e foi levado a nossos melhores hospitais. Morreu. Lamentamos muito", disse. Em seguida, afirmou: "Em meio século, não assassinamos ninguém aqui. Aqui ninguém foi torturado. Houve tortura na Ilha de Cuba, mas na base de Guantánamo, que não é nosso território."

Lula reuniu-se com Fidel Castro na residência dele. Lula encontrou Fidel "recuperado" e "excepcionalmente bem". Segundo Lula disse a assessores, a situação de Fidel hoje é muito diferente da de 2008, quando o visitou em uma casa de repouso.


REAÇÕES

Raúl Castro
Presidente de Cuba
"Lamentamos muito. Ele (Zapata) foi condenado por ter causado problemas e foi levado a nossos melhores hospitais"

"Isso (a morte) se deve à confrontação que temos com os EUA. A confrontação fez Cuba perder milhares de cubanos. Sobretudo na primeira década, vítimas de terrorismo de Estado. Entre mortos e feridos, que ficaram deficientes e mutilados, por volta de 5 mil"

Marco Aurélio Garcia
Assessor internacional do Palácio do Planalto
"Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro"



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