Isabelle - Vidas imaginárias

Atriz volta à Berlinale e fala sobre o ofício de atriz: 'É preciso saber se odiar'

Luiz Carlos Merten, Enviado especial, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2013 | 02h07

BERLIM - Isabelle Huppert já esteve diversas vezes em Berlim, recebeu o prêmio de interpretação em 2002, por Oito Mulheres, de François Ozon, e agora está de volta com a nova versão de A Religiosa, pelo diretor Guillaume Nicloux. É um pequeno papel, o da madre superiora no segundo convento em que Suzanne Simonin, a jovem heroína do romance de Denis Diderot, vive sua via crúcis na religião. No primeiro convento, sua recusa em tomar o voto provoca a ira da superiora, que a brutaliza, fisicamente. No segundo, a madre, tomada de desejo pela noviça, tenta seduzi-la. Duas formas de alienação às quais a heroína tenta reagir. Na entrevista, Isabelle fala de tudo - e em especial deixa claro que não existem pequenos papeis. Talvez, os atores é que às vezes são menores.

O que havia de atraente na proposição de Guillaume Nicklaus?

Era um papel que nunca havia feito antes e ele me colocava um problema. Queria fugir da caricatura da freira machona e explorar zonas do comportamento humano com as quais não estava familiarizada. O que se passa na cabeça dela? Ela arde no seu desejo, desfalece de amor, torna-se frágil. Poderia ser ridícula, mas possui um patetismo interessante de explorar. Foi o que fiz.

O que a interessa num projeto? É o diretor? O papel?

Às vezes, o desejo de trabalhar com determinados diretores, de conhecer outras culturas. Filmei recentemente na Coreia com Hong Sang-Soo e nas Filipinas com Brillante Mendoza. Mas eu diria que normalmente é o papel, ou então nunca filmaria com novos diretores. Quero sempre ser surpreendida.

E o que isso significa?

Ah, não é fácil de explicar e em geral não me coloco o problema dessa maneira. Como a gente aborda um papel, como faz determinadas coisas em cena. A madre pede um beijo a Suzanne, o que pode ser motivo de escândalo, mas é preciso encarar o pedido com inocência, sem julgamento moral. O ator é um narcisista que se preocupa com sua imagem. Ele tem de gostar de se ver na tela. Ao mesmo tempo, não pode se inebriar. Tem também de se odiar, para criar um distanciamento. Sem isso a gente corre o risco de se paralisar.

E o fato de o filme ser de época? Faz diferença?

Não é assim que a coisa funciona. Importantes diretores, (Claude) Chabrol, Mauro (Bolognini) me propuseram papéis que foram importantes em filmes de época. No caso de A Religiosa, havia um monte de consultores no set. A música, a liturgia, as roupas. Mas se existem registros para quase tudo, eles não existem quanto à maneira como as pessoas falavam, ou se movimentavam. Você precisa inventar e, no caso de A Religiosa, existe o problema do habito. Seu corpo desaparece ali dentro, você só tem o rosto para representar. Era tudo tão pesado - o convento lúgubre, as roupas - que a solução foi se aproximar com leveza da personagem.

A filmagem foi difícil?

O que você entende por filmagem difícil? Depois de Em Nome de Deus, Captive, de Brillante Mendoza, qualquer filmagem seria mais leve. Guillaume filma rápido, não repete muito. Conversamos sobre o personagem, o filme. Na hora de filmar, ele ensaia e é pa-pum. Gosto que as coisas sejam assim.

Você acredita que chegou aonde queria na sua carreira?

Como assim? Estou num patamar de reconhecimento muito bom, e mentiria se dissesse que o ator não trabalha em busca de reconhecimento. Não falo necessariamente de prêmios. Mas se eu não me importasse com o que faço não estaria aqui. Nunca planejei minha carreira. As coisas foram ocorrendo e, no teatro e no cinema, tive alguns contatos que foram e alguns que permanecem muito ricos, com Michael Haneke, Claude Chabrol, Bob Wilson. Mas a verdade é que você precisa ter autoconfiança. Pode ser arrogância, mas eu sempre tive.

Já que você falou em Michael Haneke, alguma surpresa quanto ao sucesso de Amor?

Surpresa, propriamente dita, não, mas é bom vê-lo receber todo esse reconhecimento. Sucesso e fracasso são coisas muito relativas. Existem filmes que vão mal e a experiência foi boa e eu prefiro avaliar meu trabalho pelas experiências. Mas o sucesso, digamos assim, de Amor não é muito difícil de explicar. A morte é um assunto que interessa a todo o mundo, mesmo que eventualmente as pessoas procurem evitá-lo. Michael encontrou sua maneira de abordá-lo. Sem concessões, com rigor e um elenco fantástico. Fico feliz com tudo o que está ocorrendo com ele.

Você trabalha com uma atriz muito jovem em A Religiosa, Pauline Etienne. O que você diria a quem está começando?

Todo mundo está sempre começando e as pessoas precisam achar o próprio caminho. A única coisa que posso dizer é: esteja na contracorrente. Vivemos numa época em que quase todo mundo quer ser celebridade. Tem gente que não faz outra coisa senão ser celebridade. Reconhecimento deve vir por alguma coisa. A celebridade vai ter seus 15 minutos de fama e fazer o que para continuar? É nojento.

Seu trabalho a leva a muitas partes, mas você vive em Paris.

É importante ter o seu ninho?

Gosto de voltar para casa, para as minhas coisas, para certos lugares que frequento. Mas o ator vive muito num mundo imaginário. As vezes, sinto-me em casa em lugares distantes.

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