Israel busca restabelecer seu orgulho militar
Alguns dão razão a Israel. Outros justificam o Hamas. Mas a maior parte das pessoas desiste de escolher e deplora o "horror da história". O horror é que cada uma das partes tem razão, ou pelo menos, suas razões. Cada um tem razão: é disto que se constituem todas as grandes tragédias, de Ésquilo a Sófocles.
Gostaria de evitar esse conceito óbvio e lançar um pouco de luz sobre outras guerras que, talvez, se dissimulam por trás do atual confronto. A primeira é uma guerra eventual de Israel com o grupo extremista Hezbollah, apoiado pelo Irã e pela Síria no Líbano, que o Exército israelense tentou destruir em 2006 - quando ocorreu o impensável: Israel foi vencido pelo Hezbollah.
A fama da invencibilidade israelense, forjada em 50 anos de heroísmo, voltou a ser contestada. E Israel, por motivos políticos e também psicológicos, sente-se condenado a restabelecer o mito dessa "invencibilidade".
Enquanto isso, prepara-se outro conflito, pior do que este, com um adversário mais impressionante, o Irã, que é um grande país prestes a ter a bomba nuclear. O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, promete "riscar Israel do mapa".
Uma bomba nuclear iraniana nas mãos de Ahmadinejad seria um perigo mortal para Israel. Portanto, se as sanções internacionais não dobrarem o Irã, se Barack Obama não conseguir atar todos os fios para o diálogo que disse querer buscar, então, Israel poderá, no mês que vem, assumir a responsabilidade de destruir por meio de ataques aéreos as instalações nucleares do Irã com o risco de atear fogo a toda a região, e levar o mundo à beira do abismo. É evidente que não faltam barris de pólvora. E estes barris são cada vez mais explosivos, porque cada protagonista aproveitou os dois anos de relativa calma para aumentar seus arsenais mortíferos.
O Hamas aproveitou-se da mediocridade, talvez voluntária, do controle estabelecido pelo Egito para reforçar seus arsenais. Debaixo da fronteira foram cavados túneis entre Gaza e o Egito, pelos quais passam alimentos, mas também armas e munições. O Hamas conta hoje com 15 mil soldados bem armados e 20 mil foguetes.
O Hezbollah, no Líbano, recebe os enormes quantidades de armamentos enviados pela Síria e pagos pelo Irã. Segundo os serviços secretos, o Hezbollah disporia de 40 mil a 50 mil foguetes e mísseis. Alguns desses foguetes, dotados de um alcance de 115 quilômetros, atingiriam Haifa, em Israel. Hoje, o Hezbollah é tão forte no Líbano que poderia lançar um ataque contra Israel. E, em caso de conflito, a Síria, que permaneceu neutra em 2006, continuaria inerte?
E, finalmente, Israel também trabalhou sem parar para devolver a seu Exército o antigo orgulho. A humilhação de 2006 produziu várias reformas. Todas as unidades foram reformuladas e modernizadas. A mesma reestruturação foi aplicada às forças aéreas, principalmente aos "drones", aviões não tripulados, usados para a vigilância da região de Gaza e do sul do Líbano.
Esse é o quadro que encontramos, além do espetáculo sinistro apresentado, neste momento, pelo Hamas e por Israel. E, sem dúvida, será impossível compreender o que ocorre em Gaza neste momento se não levarmos em conta os outros campos de batalha que já se prefiguram por trás dos incêndios dos últimos dias.
* Giles Lapouge é correspondente em Paris
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