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'Isso aqui vai explodir', diz mulher de detento

O 'Estado' entrou em uma das oito unidades de Pedrinhas, no Maranhão, de onde saem as ordens para atacar ônibus e policiais

08 de janeiro de 2014 | 2h 00
Artur Rodrigues - Enviado especial - O Estado de S.Paulo

SÃO LUÍS - O Complexo Prisional de Pedrinhas, em São Luís, passou a ser comparado a um açougue. É que a morte por ali virou rotina. Em 2013, foram 60 homicídios. O índice supera o de várias cidades do País, como Diadema, na Grande São Paulo, que registrou 49 mortes em 2012.

A reportagem do Estado foi até lá e conseguiu entrar em uma das oito unidades prisionais do complexo, de onde saem as ordens para queimar ônibus e atacar policiais na capital maranhense.

Na porta das unidades, as mulheres dos presos se aglomeram para saber se seus maridos e filhos continuam vivos. O medo é que virem mais um dos corpos exibidos em carnificinas filmadas com celular pelos presos e repassadas desde o ano passado para boa parte da cidade.

Hoje, o complexo tem 2.196 detentos, 426 a mais do que sua capacidade permite. "Isso aqui vai explodir logo, logo", diz J., de 40 anos, mulher de um dos detentos. "Ele não é de facção nenhuma, como muitos aí dentro, mas pode morrer a qualquer momento."

Do outro lado da rua, em outra penitenciária do sistema, a Tropa de Choque é um sinal de que J. pode ter razão. A força policial passou a atuar no local desde que a crise da segurança estourou novamente, logo no começo do mês.

"Nós estamos fazendo revistas e o trabalho de polícia. O resto continua com os agentes penitenciários", explica o tenente-coronel Raimundo Sá, da Tropa de Choque.

Celulares. Apesar das revistas constantes, a polícia sempre acaba encontrando armas e celulares em posse de criminosos das duas facções rivais, o Primeiro Comando do Maranhão (PCM) e o Bonde dos 40 (veja mais abaixo).

O Estado esteve em uma das unidades do complexo que é dominada por presos do Bonde dos 40, a Penitenciária São Luís 1. Logo na entrada, é possível ouvir presos batendo nas celas.

Com a ajuda de um funcionário, o Estado fez um tour pelo local. A entrada começa pela chamada "ala de Jesus", que concentra presos evangélicos. Depois, vêm a ala para visita íntima, a escola e o campo de futebol, onde os presos jogam sem camisa. "Ali no fundo fica o tal do Bonde dos 40", diz o agente, apontando para um local mais fechado do que os demais. Diferentemente das celas dos evangélicos e dos presos que não pertencem a facções, a parte reservada aos criminosos mais perigosos tem mais de um portão para que se chegue até eles.

Os presos da facção chamam a si mesmos de comunidade. Assim que o funcionário se aproxima, um deles bate nas grades e começa a chamar. "Ei, a comunidade precisa falar com o senhor", diz um homem sem camisa, detrás das grades.

O agente prisional faz um sinal indicando que depois volta ao local e continua a mostrar a unidade à reportagem do Estado. Do lado de fora, há vários presos do regime semiaberto fazendo tarefas manuais diversas. Estão a um passo de sair dali, mas muitos reincidem no crime e voltam.

Trabalho. Quem sempre continua, apesar das más condições de trabalho, são os agentes penitenciários. "Somos só 400 no Estado. É muito pouco", reclama um deles, que diz temer pela segurança. Para ele, os monitores colocados pelo governo do Estado para substituí-los não são capacitados para fazer a função dos agentes. "Você pode colocar um agente para dez presos que ele é respeitado. Esses monitores não são."

No ano passado, os presos fizeram uma das rebeliões mais violentas da história do complexo. Vários foram decapitados.

"Neste ano já foram dois mortos lá. Se continuar desse jeito, vamos superar o ano passado", avisa José Maria Ribeiro Jr., presidente da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos.

Ontem, o grupo se reuniu com várias entidades com o objetivo de saber o que está acontecendo lá dentro. Seja o que for, o reflexo está nas ruas de São Luís, onde a população especula se ainda pode acontecer alguma coisa pior depois de criminosos incendiarem ônibus com crianças dentro.


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