João nas alturas
No CD Não Vou pro Céu, Mas já Não Vivo no Chão, João Bosco canta mais contido, traz referências essenciais, retoma a parceria com Aldir Blanc e coloca o violão em evidência
Mais elegante do que antes, o violão de João Bosco nunca esteve em tamanha evidência. A voz, embora pareça não sofrer a ação do tempo, nunca esteve tão lapidada, tão harmônica. As melodias e letras percorrem um roteiro histórico, em via de duas mãos, tanto pelas influências ancestrais do samba, como pelo que ele próprio construiu. Em resumo, Não Vou pro Céu, Mas já Não Vivo no Chão (Universal), álbum de canções inéditas que rompe um jejum de seis anos, já nasce antológico. Ouça o Sonho de Caramujo
Além de solidificar o trabalho em dupla com Francisco Bosco, filho do compositor e letrista de escrita tão cortante quanto a do recém-firmado parceiro Carlos Rennó, Bosco reencontra Nei Lopes e retoma, mais de 20 anos depois, a parceria clássica com Aldir Blanc, uma das mais bem-sucedidas da canção brasileira. Os dois assinam quatro novas canções - Navalha, Mentiras de Verdade, Plural Singular e Sonho de Caramujo, de cujos versos finais Bosco extraiu o título do álbum e um subtítulo-chave: "Eu moro dentro da casca do meu violão".
Claro que o violão de João tem uma marca característica, reconhecível ao primeiro acorde há décadas, e ele já gravou outros álbuns ao vivo só com seu instrumento, mas no novo CD ele é elevado às alturas do refinamento e da liderança melódica de todo o conjunto sonoro. "Nos discos anteriores havia uma preocupação com a síncope, com o batuque, com a extroversão. Acho que aqui esse violão chama pra si um certo refinamento, uma certa sofisticação que não teria, até mesmo em função das canções", diz Bosco. "Acho que as canções levam o violão para esse universo. Ou talvez ele tenha trazido essas canções desse jeito."
Desde Malabaristas do Sinal Vermelho (2003), Bosco lançou um CD/DVD ao vivo, Obrigado, Gente! (2006). Se esse era revisionista, o novo é referencial. Dorival Caymmi, João Gilberto, Clementina de Jesus, Tito Madi, Orlando Silva, Ray Charles, João Donato e outros, além do próprio Bosco, dão sinais em citações melódicas e poéticas.
Sete das 13 faixas só têm voz e violão e mais não é preciso. Só o essencial. Daí a remissão a João Gilberto, como em Navalha e Tanto Faz (de pai e filho), que trazem uma batida de bossa nova. Como diz o compositor, há "vários Joões", referindo-se a ele mesmo, nesse álbum. "O João de outros discos aparece em Jimbo no Jazz, talvez em Sonho de Caramujo, mas você tem o outro João, como o de Desnortes e de Navalha, que tem a batida em que você se refere ao João Gilberto, mas começa lá nos anos 30 e chega até a modernidade dele. É um samba que percorre essa trajetória."
É difícil destacar uma faixa que seja, mas Navalha é exemplar daquelas canções irretocáveis da dupla cuja letra alude a sofrimento sagrado e masoquismo: "Teu sorriso é uma navalha/ Que abre o meu coração/ O sangue pelo peito/ É do Cristo na Paixão". E prossegue: "Aí, eu fui crucificado/ Nos cravos do teu amor.../ Mesmo pregado na cruz/ Sinto falta da navalha".
Tanto Bosco como Blanc dizem que a retomada da parceria, pela "afinidade sem folclore", se deu de forma natural. "Sentamos, um em frente ao outro, como se tivéssemos dado uma paradinha ontem. Rolou o mesmo jeito de quase adivinhar o que o outro está pensando", diz Blanc. Para ele esse reencontro significa muito. "É especialmente emocionante quando lembro que essa volta atende a reiterados pedidos de dois amigos, já falecidos, que nos são caros: o Betinho e o Marco Aurélio Braga Neri".
O samba Sonho de Caramujo surgiu de uma situação curiosa: "Aldir sonhou comigo cantando um samba. Quando acordou, ele se lembrou de algumas palavras que eu canto e tentou escrever a letra. Ele me mandou o texto, eu musiquei. Quando mostrei pro Francisco Bosco, ele disse: ?Isso é um autorretrato alheio?. E achou que o título do disco tinha de vir daí, porque ele está nesse espaço que o Aldir fala, entre o imanente e o transcendente", diz Bosco.
Mas não é só essa letra que tem a cara dele. "Todos os parceiros me conhecem, já sabem o que eu penso, então talvez a música já tenha esse chamamento, induz a pessoa. Isso é uma coisa que já está fora do chão. Acho incrível que parceiros diferentes tenham afinidades sem saber da música do outro."
"Áspero e cortante em sua doçura", como diz Eucanaã Ferraz numa análise que merecia ser encartada no CD, o Bosco malabarista vocal ficou para trás. Isto, diz o compositor e cantor, é obra de Francisco, que produziu o CD com Ricardo Silveira, o outro violonista do disco que desenha traçados sutis com João em duas faixas e toca guitarra em outras com a banda.
Em setembro, Bosco inicia a turnê nacional para mostrar as novas canções. Antes vai à Alemanha tocar com a NDR Bigband, de jazz, que acaba de lançar um CD com 3 temas de Tom Jobim e 16 de João Bosco, que participou do disco.
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