Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

Jobim exige transferência de tecnologia na compra de caças

Critérios para escolha dos novos caças da FAB devem ser definidos até fevereiro de 2008

19 de novembro de 2007 | 0h 00
Roberto Godoy - O Estadao de S.Paulo

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, quer definir os critérios para a escolha dos novos caças supersônicos da Força Aérea Brasileira (FAB) até o fevereiro de 2008 - embora haja boa chance de que essa fase do processo seja concluída no mês que vem. Só uma exigência é inegociável. Por determinação de Jobim, a seleção será referenciada pela transferência de conhecimento avançado.

"A transferência de tecnologia da aeronave será essencial à decisão de compra", avisa o ministro. E apresenta esse ponto como uma questão simples: "Ou abrem a tecnologia ou não levam o contrato."

"O programa está sendo reavaliado", afirma Jobim, ao explicar o plano para escolha dos novos caças. "O trabalho se inicia com os estudos do Comando da Aeronáutica para definição dos requisitos da aeronave. A solução deverá ser sobreposta ao projeto de desenvolvimento nacional."

O programa FX-2 deve operar por consulta direta, um procedimento que permite dar preferência à aeronave adequada à necessidade da FAB, sem os limites da concorrência formal.

O tamanho da frota pretendida pela Força é estimado em 36 aviões e os recursos do investimento, da ordem de US$ 2,2 bilhões. Jobim, porém, alerta para o fato de ainda não haver deliberação sobre esses números. "Não há decisão alguma sobre valores ou quantidade de aeronaves a serem adquiridas. Isso se dará por meio da Estratégia Nacional de Defesa, que será apresentada no dia 7 de setembro de 2008."

A demanda sobre a tecnologia está longe de ser singela. Os fabricantes de caças de 5ª geração travam uma luta feroz com seus governos, restritivos quanto à cessão de informações consideradas sensíveis e que possam eventualmente chegar às mãos de grupos hostis.

MODELOS

O Alto Comando não é modesto em suas cogitações. Avalia o caríssimo Typhoon, o Eurofighter, e mesmo o F-35 Lightning, dos Estados Unidos - primeiras entregas nos EUA previstas para depois de 2014 -, o francês Rafale e, remanescentes da licitação anterior (a FX-1, cancelada em 2005), o russo Sukhoi-35 e o sueco Gripen JAS-39. Os americanos gostariam de entrar nessa discussão com o F-18A, poderoso caça-padrão da aviação naval, ou com a versão mais moderna do F-16. Mas esbarram na questão da entrega do conhecimento de ponta, vetado por um conjunto de leis. A rigor, apenas os prováveis concorrentes russos e franceses é que se dispõem a incluir a tecnologia no negócio.

Outro problema é fechar a conta: em média, cada um desses jatos não sai por menos de US$ 70 milhões a peça, com suprimentos básicos - um pedido total de US$ 2,5 bilhões, não considerados sistemas de armas, treinamento de pessoal, documentação e suporte à manutenção.

Por enquanto, o ministro da Defesa busca recursos para a modernização das três Forças. "Negociei com o Ministério do Planejamento uma suplementação de R$ 3 bilhões sobre os R$ 6 bilhões previstos para investimentos em 2008. Na execução haverá mais R$ 1 bilhão. O total vai a R$ 10 bilhões", conta.

TRANSFERÊNCIA

Oficiais da engenharia aeronáutica e especialistas independentes ouvidos pelo Estado concordam em que é preciso deixar claramente especificada como será praticada a passagem dos princípios tecnológicos. Na opinião de um engenheiro ligado ao Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) de São José dos Campos, o procedimento não se limita à entrega dos planos para a construção do caça, mas deve ser compreendido como o acesso ao conhecimento original mais profundo. "Em biologia, seria como aprender a criar a vida, e não apenas a copiá-la, como acontece na clonagem", compara o oficial.

Isso já aconteceu antes. Nos anos 80 a Embraer, então empresa estatal, associou-se a um consórcio italiano para produzir o caça-bombardeiro subsônico AMX, ainda hoje o principal vetor de ataque estratégico da FAB. O empreendimento custou ao governo entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões. A encomenda inicial de uma centena de jatos acabou limitada a pouco mais de 50, dos quais 53 estão em uso e começaram a receber um banho de revitalização eletrônica faz cerca de dois meses.

Foi com a experiência acumulada nesse acordo que a Embraer aprendeu a dominar determinado grau de informação, presente na linha comercial (de 50 até 122 lugares) da companhia.

"Há aspectos sutis", explica o engenheiro. "Os estudos do cone do nariz do novo caça servirão de base para quaisquer outros veículos aéreos de alto desempenho."