Lado emocional derrubou a equipe, dizem psicólogos
De acordo com especialistas ouvidos pelo ''Estado'', desequilíbrio partiu de Dunga e se [br]disseminou para o elenco
Nem falta de qualidade técnica, nem de preparo físico. O grande problema da seleção brasileira foi o desequilíbrio emocional do grupo, segundo psicólogos ouvidos pelo Estado.
"Tecnicamente, eles estavam bem, faltou equilíbrio emocional. Logo que o jogo terminou, você via que a emoção deles estava no gargalo", observou a psicóloga Daniela Zanuncini.
O presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac, observou um quadro mais complexo, o da pirâmide ? que, de um lado, tem a parte técnica, do outro, a física e, na base, a emocional. "O Brasil tinha um lado técnico mediano, o físico com vários problemas de lesões e a base completamente desestruturada."
Tal constatação, porém, não veio a partir de apenas um jogo. Segundo eles, a queda do Brasil envolve uma série de fatores. A começar do comportamento do técnico Dunga. "Ele estava abalado, alguém da família estava doente e isso gera uma perda emocional", explicou Daniela.
Daí vêm as atitudes inadequadas, conforme resume Cozac: "Tanto nas coletivas como no banco, ele dava claras evidências de que não tinha condições para assumir a seleção brasileira numa Copa do Mundo."
Outro fator foi a expectativa em cima do grupo e a impossibilidade de desapontar: a ansiedade de desempenho. "É a pior coisa que pode acontecer com um indivíduo. Essa necessidade de cumprir uma meta te faz respirar menos e você não raciocina direito. A tendência é a perda de performance", disse a psicóloga.
Apesar de Dunga ter mantido quase a mesma escalação durante os 47 meses em que liderou a equipe, isso não significa que os atletas se conheçam realmente. "Mesmo uma família que se conheça há 4, 10, 30 anos terá conflitos e, se não souber como lidar, terá problemas", disse Daniela.
O quadro poderia ser evitado com um trabalho preventivo de psicologia, como 20 das 32 seleções fizeram desde 4 anos antes da Copa, segundo os especialistas. "Mais uma vez, faltou apoio psicológico, por puro preconceito e desinformação da comissão técnica", reclamou Cozac.
A última vez em que a seleção teve um suporte desse tipo foi em 2002, quando conquistou o pentacampeonato liderada por Felipão. De lá para cá, o grupo enfrentou problemas opostos, mas ambos com solução associada ao trabalho emocional.
"Em 2006, faltou comprometimento dos atletas e era necessário motivar, principalmente, os jogadores mais velhos à beira de encerrar a carreira", disse o psicólogo. "Agora, o técnico foi centralizador e, ao mesmo tempo, inseguro nas decisões, o que pode ter comprometido o resto do grupo."
Cozac aproveita para deixar um recado, em tom de apelo, para a Copa de 2014, que será realizada no próprio País e, por isso mesmo, sujeita a uma pressão enorme. "Haverá muito mais cobrança e o nível de estresse subirá. Por isso, é mais do que imprescindível que comece agora um trabalho de acompanhamento psicológico, tão logo seja nomeado nova comissão técnica."
Para não repetir, pela terceira vez, o erro do futebol brasileiro de "considerar o trabalho psicológico uma fragilidade". "Em vez de combater, prefere-se ocultar", afirmou.
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