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Líderes africanos rejeitam tropas estrangeiras na Líbia

Vizinhos, que receberam apoio de Kadafi e são pressionados a romper laços com Trípoli, temem ser alvos de revoltas

25 de agosto de 2011 | 0h 00
Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

ENVIADO ESPECIAL A NAIRÓBI - A situação do ditador Muamar Kadafi levou governos africanos de Quênia, Zimbábue e Suazilândia a se opor a uma eventual ocupação da Líbia por tropas estrangeiras. Kadafi investiu de forma pesada na África, financiou campanhas eleitorais de aliados e deu armas para conseguir o apoio político desses governos. Com seu reinado ameaçado, líderes africanos temem ser alvo de revoltas similares e são pressionados a romper laços com o regime de Trípoli.

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Nigéria e Marrocos romperam com Kadafi e o avanço dos opositores também obrigou a União Africana a convocar uma reunião de chefes de Estado para amanhã para traçar uma estratégia para a transição no país sem o envolvimento de países fora da África. Burkina Fasso ofereceu asilo a Kadafi, desde que ele não possa movimentar o dinheiro que tem no país.


Kadafi investiu US$ 5 bilhões pela África, na esperança de criar uma espécie de escudo contra o Ocidente. Um dos governos que vive uma saia justa é o do Quênia, que há poucas semanas criticou o apelo dos Estados Unidos para que Kadafi deixasse o poder. A administração Obama ainda pressiona Nairóbi a congelar os bens do ditador líbio. O governo queniano tem ignorado os pedidos.

Na Embaixada da Líbia em Nairóbi, a bandeira verde ainda tremula, num claro sinal de que o Quênia continua a reconhecer apenas Kadafi como líder. Ao Estado, a assessoria de imprensa do governo queniano garantiu que Nairóbi "não aceita pressões externas". No Exército queniano, Kadafi também tem seus seguidores. Um dos soldados que acompanhou a reportagem até a fronteira com a Somália levava a foto do líbio como tela de fundo de seu celular.

Kadafi financiou a campanha do atual presidente Mwai Kibaki, que retribuiu com apoio político e acordos comerciais vantajosos. Um deles foi entregar ao líder líbio o Hotel Regency, um dos melhores de Nairóbi. O hotel era de propriedade pública e estava para ser privatizado. Sem licitação, foi passado aos líbios por US$ 8 milhões, 25% do preço original. O Estado foi ao local e a gerência garantiu que operava "normalmente". Turistas americanos e europeus não sabiam que o hotel era de Kadafi.

Outra concessão foi autorizar a Líbia a entrar no mercado comum dos países do Sudeste Africano, o que abriu as portas da região para Trípoli. A manobra garantiu vantagens às empresas líbias, que tomaram o lugar de multinacionais ocidentais. Para fechar os negócios em nome de Trípoli no leste da África, Kadafi escolheu um parente do presidente queniano como seu representante. A Líbia ganhou as licitações para construir o gasoduto entre Uganda, Quênia e outros cinco países.

Trípoli comprou todos os postos de gasolina no Quênia que estavam nas mãos da Mobil Oil, uma refinaria em Mombasa, empresas de aviação, terminais portuários e outros negócios.

Todos esses projetos estão agora ameaçados. Desde o início da guerra, pelo menos um dos gasodutos em Uganda que seria construído por Kadafi teve sua obra cancelada. O governo local temia que, com as sanções da ONU e a crise em Trípoli, a obra de US$ 800 milhões fosse deixada pela metade. O mesmo ocorreu com a refinaria em Mombasa.

"A queda de Kadafi será um alerta aos ditadores africanos, como Robert Mugabe, o rei Mswatie da Suazilândia e Mwai Kibaki do Quênia", afirmou o Movimento por Mudanças Democráticas do Zimbábue. "Os dias também estão contados para esses ditadores", disse o grupo, que reúne mais de 50 entidades pelo continente e acusa a União Africana de tentar colocar panos quentes para evitar mais revoltas.