Liga Árabe tomou coragem
A Liga Árabe requereu o envio de uma força de paz à Síria para pôr fim ao horror que persiste no país desde 18 de março de 2011, quando os cidadãos sírios, estimulados pelo exemplo de Tunísia, Egito e Líbia, decidiram enfrentar com as mãos nuas os soldados do presidente Bashar Assad.
Até o momento, a Liga Árabe não havia mostrado uma grande coragem nas suas tentativas para obter um cessar-fogo na Síria. Seus observadores, sob a liderança do general sudanês Ahmed Mustafá al-Dhab, personagem duvidoso e pouco democrático, passearam em meio aos civis sírios mortos pelos tanques de Assad na cidade de Homs, hoje o principal reduto da oposição, sem parecer muito chocados.
Agora, ela despertou. O general sudanês fez o favor de retornar ao Sudão. E a Liga Árabe solicitou o envio de uma força de paz à Síria, pois a ONU, bloqueada pelas amizades econômicas e políticas da China e da Rússia com o tirano Bashar Assad, não conseguiu agir em favor da paz.
A mudança é notável. Mostra que, no seio da Liga Árabe, a influência do Catar, o rico emirado do Golfo, sede da rede de notícias Al-Jazeera, assume cada vez mais a liderança. Mas a presidência da Liga Árabe, embora no momento esteja em mãos do Catar, será transferida proximamente para o Iraque, país ainda golpeado pela guerra, desorientado e influenciado pelo seu temido vizinho, o Irã, protetor da Síria.
A Síria, portanto, ainda conta com sólido apoio no Oriente Médio. O mais perigoso é o Irã xiita, que inunda de dólares o regime de Bashar Assad, bastante afetado por uma violenta crise econômica.
Recentemente, hackers interceptaram correspondências secretas entre Teerã e Damasco. E souberam que Teerã está pronto para fornecer ao governo de Damasco US$ 1 bilhão e conselhos para o regime sobreviver, como aliás já vem fazendo, apesar do embargo dos europeus. Entre os amigos dos sírios em revolta contra o déspota, alguns são isentos de qualquer suspeita, como os países europeus e os EUA. Os americanos hesitam em lançar uma intervenção armada, já que Iraque e Afeganistão serviram como uma espécie de "vacina" para desencorajar o Exército americano de se arriscar numa terceira aventura guerreira na Síria.
Outros amigos da revolta democrática na Síria são mais preocupantes. A Irmandade Muçulmana, no Egito, já apelou a uma "guerra santa" contra o regime despótico de Bashar Assad.
E mais inquietante ainda é o discurso do número um da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, que afirmou que a organização Estado Islâmico do Iraque, afiliada da Al-Qaeda, "enviará seus melhores homens para a Síria". Algumas explosões misteriosas que enlutaram recentemente Alepo talvez sejam obra da Al-Qaeda. É preciso entender que uma das alegações de Assad para justificar a sangrenta brutalidade é exatamente "o perigo do islamismo terrorista".
A Síria com frequência lembra o que ocorreu na Tunísia, no Egito e na Líbia no ano passado, ou seja, que as revoltas para libertar estes países dos seus tiranos, permitiram a fanáticos religiosos, à Al-Qaeda ou aos extremistas islâmicos como os salafistas egípcios, garantir seu domínio sobre "as democracias tunisiana, egípcia ou líbia". Apesar de tudo, o fato é que há um pouco de verdade nesta análise. Aliás, é por isso que o Ocidente vacila em atacar em cheio o regime desumano e degradante de Bashar Assad. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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