Lula recua e esvazia viagem à China
Governo refez planos após tentativa frustrada de encontro preliminar do chanceler Celso Amorim com presidente chinês
Planejada inicialmente para durar cinco dias e ter uma delegação empresarial recorde, além de uma constelação de ministros, a viagem oficial que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará à China, na próxima semana, foi reduzida a magras 48 horas e contará com a presença apenas dos ministros Celso Amorim, das Relações Exteriores, Miguel Jorge, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, e Pedro Brito, dos Portos. Lula chega amanhã a Pequim, depois de passar pela Arábia Saudita e Turquia.
Quando comparada à primeira visita de Lula ao país, em 2004, a atual delegação fica ainda mais pálida. Naquele ano, o presidente permaneceu na China por cinco dias e sua comitiva tinha 400 empresários e 8 ministros.
Apesar de o principal objetivo comercial do Brasil com a visita presidencial ser a liberação do mercado de carnes, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, não acompanhará o presidente.
O ministro da Economia, Guido Mantega, era esperado em um seminário do setor financeiro em Xangai, que também deveria ter a presença do presidente do conselho de administração da BM&F Bovespa, Armínio Fraga. Sem Mantega, Fraga não estará presente. O representante do governo brasileiro no evento será o ministro Pedro Brito.
Diante da escassa presença de autoridades e da ausência de eventos relevantes, vários empresários também desistiram da viagem e a que seria a maior delegação do setor privado da história não deverá alcançar cem pessoas, segundo avaliação obtida pelo Estado. Oficialmente, há 150 empresários inscritos, mas muitos deverão desistir em razão do contorno que a visita ganhou.
TRATAMENTO DISTINTO
A ideia original era que ministros da área econômica e integrantes do setor privado chegassem à China antes do presidente, para contatos com empresas chinesas. Afinal, um dos objetivos declarados de Lula com a visita é diversificar a pauta de exportações do Brasil para o país asiático, extremamente concentrada em soja e minério de ferro.
Os planos mudaram depois que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, viu frustrada a sua pretensão de ser recebido pelo presidente da China, Hu Jintao, em viagem cujo objetivo é preparar a chegada de Lula.
Hu Jintao se reuniu com a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, no dia 21 de fevereiro, na primeira visita ao exterior da ex-pré-candidata democrata à Presidência dos Estados Unidos depois de assumir o cargo.
Além disso, o ministro das Relações Exteriores da China, Yang Jiechi, foi recebido pelo presidente Lula quando esteve em Brasília, no mês de janeiro.
Amorim pretendia ter o mesmo tratamento recebido por Yang Jiechi e interpretou a recusa como um sinal de que a China não dá ao Brasil a importância que ele considera ser merecida. A resposta do governo brasileiro foi reduzir o peso da comitiva que acompanhará Lula a Pequim e encurtar o período da viagem.
MAIOR CLIENTE
A decisão do governo Lula ocorreu no momento em que a China superou os Estados Unidos e assumiu o primeiro lugar como destino das exportações brasileiras. Os embarques nacionais para o país asiático cresceram 66,7%, em valor, nos primeiros quatro meses do ano, enquanto o volume total de exportações recuou 16,5%.
As vendas de produtos brasileiros para a China somaram no período US$ 5,63 bilhões, o equivalente a 12,9% do total, enquanto os EUA ficaram com US$ 4,93 bilhões, equivalente a uma participação de 11,3%.
O embaixador do Brasil na China, Clodoaldo Hugueney, negou que a visita tenha sido reduzida e afirmou que, desde o começo, ela era programada para durar três dias. Mas o Estado confirmou a informação com três fontes diferentes, dentro e fora da China. Além disso, os três dias, na verdade, vão representar apenas cerca de 48 horas.
Lula chega à capital chinesa no horário do almoço da segunda-feira e não tem agenda oficial no restante do dia. Seus compromissos serão na terça-feira e na manhã da quarta-feira, antes de deixar o país, também na hora do almoço.
Clodoaldo Hugueney ressaltou que o principal evento da visita será o encontro entre os presidentes Hu Jintao e Lula, na terça-feira, no qual deverá ser assinado um acordo que prevê o estabelecimento de metas de longo prazo para o relacionamento bilateral.
Hugueney está otimista em relação à liberação das importações de carnes pela China. As negociações estão sendo conduzidas pelo secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Célio Porto, que tem reunião marcada com autoridades chinesas para discutir a questão.
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