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Manoel de Barros em poesia visual

Só Dez por Cento É Mentira, exibido em Paulínia, é um belo filme sobre o poeta

16 de julho de 2009 | 0h 00
Luiz Zanin Oricchio - O Estadao de S.Paulo

A poesia de Manoel de Barros e a tragédia da emigração brasileira foram as atrações do Festival de Paulínia em seu quarto dia de competição. Só Dez por Cento É Mentira, de Pedro Cezar, procura fazer um documentário poético sobre um poeta, o que se mostra opção bem pensada. Olhos Azuis, de José Joffily, mostra a relação conflituosa dos brasileiros que saem do País e as autoridades de imigração dos países que os recebem - muitas vezes a contragosto.

Primeiro, o poeta. Belo documentário de Pedro Cezar, autor do filme Fábio Fabuloso, sobre o surfista brasileiro. Um filme que, por pouco deixa de existir, já que Manoel é avesso a entrevistas gravadas e - pior ainda - filmadas. É o que explica a voz off do diretor, logo no começo. Ele insistiu, insistiu e insistiu em gravar imagens com Manoel. Mas este sempre dava um jeito de escapar. Até que Pedro Cezar desistiu. E, desistindo, disse a frase que o salvou: "Era só um sonho, mesmo." Manoel imediatamente reagiu: "Está bem. Traga suas tralhas amanhã bem cedinho." Como o velho poeta, para quem o sonho é tão importante, ficaria indiferente ao sonho de um rapaz? E assim o documentário passou a existir.

O mínimo que se pode dizer é que Pedro Cezar aproveitou bem a oportunidade. Fez um filme de imagens poéticas, com bons depoimentos e, acima de tudo, a fala simples e límpida do poeta, que define o seu métier como a arte do inútil. Inutilidade imprescindível, que faz profissão de fé no encantamento de um mundo tornado rígido pela racionalidade e pelo pragmatismo. Ao qual se devolvem espessura e sentido através da palavra poética. Trabalho duro, esse de lutar com palavras (como dizia Drummond) e que nada tem a ver com inspiração, como diz Manoel, mas com esforço, lapidação e paciência. Os mesmos procedimentos deveriam ser aplicados ao cinema. Mas, no caso, o que se pode dizer é que os escritores têm mais consciência da artesania do que a maior parte dos cineastas.

Por exemplo, Olhos Azuis, que poderia ser um belo filme, mas perde-se nos detalhes. A estrutura é bem sacada. Temos o desenvolvimento em dois tempos e duas situações. Uma delas se passa no aeroporto JFK, em Nova York, no Departamento de Imigração, onde o chefe, Marshall (David Rasche), "festeja" sua aposentaria compulsória enchendo a cara e disposto a transformar em inferno a vida dos estrangeiros que, naquele dia, tentam entrar nos Estados Unidos. Em trama paralela, vemos o mesmo Marshall, no Nordeste brasileiro, em pileque permanente e procurando alguém com a ajuda de uma garota de programa que ele conheceu no Recife. Até certo ponto, não se sabe bem como se relaciona uma trama com a outra. Mas, a partir da metade do filme, tudo se torna transparente e, mais ainda, previsível.

Duas ideias tomam corpo nas duas tramas paralelas de Olhos Azuis. Na primeira, no Departamento de Imigração em Nova York, o que se tem é a encenação das relações entre o mundo pobre e o mundo rico. Marshall representa o preconceito, a possível mentalidade média norte-americana em relação aos pretendentes estrangeiros à cidadania em seu país. O brasileiro Nonato (Irandhir Santos) seria uma espécie de consciência crítica dessa contradição, não se poupando de um discurso histórico (o personagem é professor de História) sobre a dialética de interdependência entre pobreza e riqueza. Didatismo, dirigido mais ao espectador que ditado por uma necessidade intrínseca ao personagem. Na segunda ideia, predominam os temas da culpa e expiação, com o personagem buscando nas águas a lavagem, a redenção final dos pecados. O filme não deixa de ter seus bons momentos, mas essa mecânica fatalista acaba por enfraquecê-lo. De qualquer forma, o público gostou e aplaudiu muito.

O festival termina hoje à noite com a exibição, fora de concurso, de Tempos de Paz, de Daniel Filho. Faltando ainda dois concorrentes a serem apresentados, pode-se já dizer que o balanço do festival é positivo.

O repórter viajou a convite do festival

GRAMADO ANUNCIA 11 FILMES CONCORRENTES

HOMENAGENS:

O Festival de Gramado anunciou esta semana os filmes selecionados para a sua 37.ª edição, que ocorre de 9 a 15 de agosto. Serão 11 longas-metragens, divididos entre as competições nacional e estrangeira. Foram inscritos 85 títulos do Brasil, 98% a mais do que em 2008. Durante o festival, quatro nomes do cinema brasileiro serão homenageados: o ator Reginaldo Faria vai ganhar o Troféu Oscarito, o cineasta Ruy Guerra receberá o Kikito de Cristal, e duas homenagens especiais serão oferecidas a Itacyr Rossi, veterano produtor gaúcho, e Ivo Czamanski, diretor de fotografia que comemora 50 anos de profissão. O site do festival é www.festivaldegramado.net.

COMPETIÇÃO NACIONAL:

Canção de Baal, de Helena Ignez

Cildo, de Carlos Moura

Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo

Corumbiara, de Vincent Carelli

Em Teu Nome, de Paulo Nascimento

Quase Um Tango, de Sérgio Silva

COMPETIÇÃO ESTRANGEIRA:

Gigante, de Adrián Biniez (Uruguai)

A Teta Assustada, de Claudia Llosa (Peru)

Lluvia, de Paula Hernandez (Argentina)

La Proxima Estación, de Fernando Solanas (Argentina)

Nochebuena, de Maria Camila Loboguerrero (Colômbia)