Meta do artista era buscar uma estética nacional
Se você já ouviu tantas vezes a palavra Tropicália associada a um momento peculiar da cultura brasileira, isso se deve ao genial Hélio Oiticica.
Na exposição Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), do Rio, em 1967, ele instalou nos jardins um ambiente (ou penetrável) chamado de Tropicália, um labirinto similar à estrutura arquitetônica improvisada das favelas. O público caminhava descalço, pisando em areia, brita, água, convivendo com plantas, pássaros, poemas-objetos e, no fim, se defrontava com um televisor ligado. Oiticica iniciou o confronto da arte brasileira com os movimentos artísticos mundiais. Sua meta era a busca de uma estética nacional. Nascia um Brasil de vanguarda.
Assim Oiticica, que morreu em 1980, após um acidente vascular cerebral, explicava sua forma de pensar a arte em seu tempo: "Como cheguei a isso é uma longa história. A descoberta no morro da favela carioca, do bas-fonds do Rio e minha iniciação no samba como passista da Mangueira foram um processo propositalmente anti-intelectual. Enquanto muitos sonhavam com Paris, Londres, Nova York, eu me dedico ao que chamo de volta ao mito. Longe de ser uma atitude intelectual, abstrata. Foi uma experiência decisiva no contexto da cultura brasileira, a descoberta de forças expressivas latentes nesse contexto. Não acredito numa arte cosmopolita. Para ser universal, só desenvolvendo nossa própria capacidade expressiva: a dança, o rito, as manifestações populares, o tropicalismo brasileiro, as festas coletivas. Nossa pobre cultura universalista, baseada na europeia e americana, deveria voltar-se para si mesma, procurar seu sentido próprio, voltar a pisar no chão, a fazer com a mão, voltar-se para o negro e o índio, à mestiçagem: chega de arianismo cultural no Brasil."
Oiticica rompeu com a ideia de contemplação estática de uma obra. Em vez disso, propôs a apreciação sensorial mais ampla da obra, por meio do tato, do olfato, da audição e até do paladar. São famosos os seus Penetráveis, criados para ser vivenciados pelo espectador. Os primeiros parangolés eram capas para se jogar sobre o corpo, feitas com materiais de tendas, estandartes e bandeiras. Ele as definia como "antiarte por excelência".
Neto de José Oiticica, anarquista, professor e filólogo, Hélio nasceu em 26 de julho de 1937 no Rio. Em 1959, fundou o Grupo Neoconcreto, com artistas como Amilcar de Castro e Lygia Clark. Em 1965, começou carreira internacional, na exposição Soundings Two, em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinski, Mondrian e Léger.
Em 1967, iniciou as propostas sensoriais, como os bólides da Trilogia Sensorial. Em 1972, passou a usar o formato Super-8 para fazer filmes, na proposta experimentalista que regeu sua vida. Em 1979, fez seu último penetrável, Azul in Azul. Nesse mesmo ano, Ivan Cardoso realizou o filme HO, sobre a obra do artista. Em 1981, é criado o Projeto Hélio Oiticica, para preservar, analisar e divulgar sua obra. Entre 1992 e 1997, o Projeto HO realiza uma mostra retrospectiva por Roterdã (Holanda), Paris (França), Barcelona (Espanha), Lisboa (Portugal), Minneapolis (EUA) e Rio.
Em 1996, é fundado o Centro de Artes Hélio Oiticica, para abrigar o acervo do artista e disponibilizá-lo ao público. Em 2007, outra mostra, a Hélio Oiticica: The Body of Color, viaja por países como EUA e Inglaterra.
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