Montadora agoniza na contramão
Imensos corredores vazios entre máquinas paradas e armações metálicas de carrocerias de ônibus inacabadas. O silêncio só é quebrado pelo ruído de um carrinho puxado pelo único funcionário que se avista no coração da linha de montagem da Busscar, uma das mais tradicionais fabricantes de ônibus do Brasil. Os uniformes de proteção dos operários pendurados pelos cantos completam a cena, que contrasta com o atual momento da indústria automotiva.
Com os concorrentes batendo recordes de produção, não sai mais um ônibus sequer da fábrica da Busscar em Joinville (SC), que já chegou a produzir 21 por dia. E não é por falta de pedidos. Mesmo com a concorrência de multinacionais, a empresa brasileira segue entre as mais respeitadas do setor. Mas, afogada em dívidas que somam pelo menos R$ 600 milhões, está com a produção parada há mais de um mês. Não há como comprar matéria-prima ou pagar os salários de 3 mil empregados.
A empresa está prestes a completar o terceiro mês de salários atrasados, sem contar o décimo terceiro e encargos trabalhistas que somam R$ 220 milhões. Também parou de pagar um financiamento de R$ 30 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e as indenizações dos mil funcionários que aderiram ao programa de demissão voluntária realizado em janeiro. Além de fornecedores, a Busscar deve a 11 bancos pelo menos R$ 262 milhões. Um imbróglio judicial com ex-acionistas ainda envolve outra dívida milionária.
Na manhã fria da última terça-feira, dezenas de funcionários passavam pela portaria da fábrica. Mas não havia trabalho. Até pouco tempo orgulhosos de ter um emprego cobiçado, eles retiravam cestas básicas montadas por colegas voluntários a partir de doações de moradores e comerciantes da cidade. As lojas já não lhes dão mais crédito e o Sindicato dos Mecânicos de Joinville pediu às companhias de luz e água que não cortem o abastecimento das famílias de operários, que tiveram o plano de saúde suspenso no ano passado.
Sem produção e com ponto liberado, a maioria tenta sobreviver de bicos. "Essa semana, até espalhei um caminhão de terra", conta Eliane Gerker, que há três anos trabalhava na montagem de portas da Busscar. Preocupada com o sustento do filho de quatro anos, ela reluta em procurar um novo emprego, mas já perde a esperança de manter o salário de R$ 1 mil. "Não é fácil achar vaga com o mesmo salário. Na fila dos alimentos, o clima parece o de um velório. É muito triste".
O curioso entre os funcionários da Busscar é que a maioria não culpa o patrão. Filho do homem que transformou um pequeno negócio em uma grande indústria exportadora, Claudio Nielson é defendido e vive cercado de uma comissão que vai de diretores a soldadores do chão de fábrica.
Drama. A origem do drama da Busscar está em 1998, na morte do então presidente, Harold Nielson, em um desastre de avião sem ter tido tempo de preparar a sucessão. Ele havia acabado de contratar executivos para profissionalizar a empresa e a viúva e os dois filhos os mantiveram.
Como a Busscar tinha dívidas em dólar, foi muito prejudicada pela maxidesvalorização do real, em 1999. Somadas a decisões de investimento discutíveis, as dívidas voltaram a crescer com a crise econômica de 2002, levando Claudio a retomar para a família o negócio do pai.
Engenheiro mecânico respeitado no setor por se envolver diretamente nos projetos dos ônibus e na negociação com clientes, ele assumiu a direção em 2003 numa situação parecida com a atual, mas encontrou num financiamento de R$ 30 milhões do BNDES uma tábua de salvação. Evangélico, espalhou frases bíblicas pelos galpões e conseguiu recuperar a produção sem deixar de inovar. Investiu em novos modelos de sucesso, como o rodoviário de dois pisos.
No entanto, o endividamento se manteve alto e a empresa passou a ficar cada vez mais dependente dos bancos para capital de giro. Com a quebra do Lehman Brothers nos Estados Unidos, em setembro de 2008, as linhas de crédito sumiram. Em 2009, a Busscar tentou manter a produção negociando adiantamentos com clientes e mais prazo com fornecedores, mas entrou em colapso em 2010.
Nielson se diz preocupado com os funcionários e busca saídas em várias frentes. Tenta um novo empréstimo do BNDES, propôs o alongamento da dívida com os bancos e articula a venda de uma subsidiária. A grande esperança é o resgate de cerca de R$ 600 milhões em créditos-prêmio do IPI, criados em 1969 para incentivar exportadores, mas que têm a validade contestada pela Procuradoria da Fazenda. No mês passado, os funcionários que o apoiam encheram 40 ônibus fabricados por eles, cedidos por clientes, e seguiram até Brasília para pressionar o governo federal por uma ajuda oficial, por meio do crédito de IPI ou do BNDES.
Conseguiram reuniões com o chefe de gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, e com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. O BNDES intercedeu junto aos credores, mas não sinalizou com novos empréstimos. Segundo Carlos Leibowicz, executivo do Santander, maior credor, a dívida da Busscar é maior do que a empresa diz, mas a maioria dos bancos concorda com o alongamento. O que não aceita é dar novo crédito de R$ 76 milhões para a empresa retomar a produção de uma encomenda de 1.350 ônibus para a Guatemala, que renderia R$ 190 milhões. Só 100 unidades foram concluídas.
"Isso nos possibilitaria recomeçar", argumenta Nielson. "Acredito na empresa. Em 2004, quando o BNDES nos emprestou R$ 30 milhões, nos deram três meses de sobrevida. Mas, em 2007 já produzíamos mais de 2,7 mil carros. Não foi à toa."
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