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Morre Alfonsín, 1º presidente eleito após a redemocratização da Argentina

Um dos idealizadores do Mercosul, ex-presidente teve governo marcado por hiperinflação e revoltas militares; ele tinha câncer no pulmão, será velado hoje no Congresso Nacional e sepultado amanhã no Cemitério da Recoleta

01 de abril de 2009 | 0h 00
Ariel Palacios - O Estadao de S.Paulo

O ex-presidente argentino Raúl Alfonsín (1983-1989) morreu ontem à noite, em Buenos Aires, aos 82 anos. Ele tinha câncer no pulmão, agravado por uma metástase nos ossos. Uma multidão se concentrou na porta do prédio onde o ex-presidente morava, na Avenida Santa Fé, após o anúncio da morte. "O ex-presidente morreu em paz, na companhia da família", disse seu médico. Seu corpo será velado no Congresso e sepultado amanhã no Cemitério da Recoleta.

Alfonsín foi o primeiro presidente eleito após o fim do regime militar (1976-1983). Terminou seu mandato seis meses antes do previsto, em julho de 1989, em meio ao caos da hiperinflação. Ao contrário de todos os seus sucessores, Alfonsín jamais teve seu nome envolvido em denúncias de corrupção.

DIREITOS HUMANOS

Raúl Ricardo Alfonsín nasceu em Chascomús, na Província de Buenos Aires, em 12 de março de 1927. Descendente de espanhóis, formou-se em Direito e entrou para a União Cívica Radical (UCR), partido pelo qual foi eleito vereador, deputado estadual e federal. Nestes, como em todos seus cargos futuros - incluindo o de presidente -, os golpes militares ou outros eventos graves impediriam que completasse os mandatos.

Sua carreira política foi marcada pela defesa dos direitos humanos. Em 1983, o regime militar, enfraquecido pela derrota na Guerra das Malvinas, convocou eleições gerais. Alfonsín foi eleito presidente com 51,7% dos votos. Era a primeira vez que a UCR derrotava o peronismo em uma eleição presidencial.

Após tomar posse na Casa Rosada, prendeu líderes militares responsáveis pela morte e desaparecimento de 30 mil pessoas durante a ditadura, medida inédita na América do Sul.

Os processos irritaram os militares que, em 1987, sob comando tenente-coronel Aldo Rico, se rebelaram no movimento conhecido como cara-pintadas. Alfonsín conseguiu evitar o golpe, mas teve de ceder aos rebeldes. Primeiro, com a promulgação da Lei de Ponto Final, que impedia o surgimento de novos processos além dos que já estavam em andamento. Depois, com a Lei de Obediência Devida, que perdoava os que cometeram crimes cumprindo ordens superiores.

Paralelamente à queda do prestígio político, Alfonsín perdia a batalha contra a hiperinflação. O Plano Austral, criado em 1985, que havia estabilizado a economia, dava sinais de esgotamento e ele teve de enfrentar 13 greves gerais - um recorde que persiste até hoje.

Três novas rebeliões militares - Monte Caseros e Villa Martelli, em 1988, e La Tablada, no ano seguinte - desgastaram seu governo. Nas eleições presidenciais de 1989, o peronista Carlos Menem saiu vencedor. Com uma hiperinflação de 4.700%, Alfonsín renunciou seis meses antes do previsto pela Constituição.

Alfonsín voltaria à política em 2001, quando foi eleito senador. Mas, dez dias após assumir a cadeira no Congresso, o presidente Fernando De La Rúa, da UCR, caiu. Desiludido, Alfonsín renunciou ao cargo em 2002.

Os argentinos, porém, sempre o respeitaram. Em 2003 uma pesquisa o colocou em primeiro lugar no ranking dos presidentes com melhor imagem desde a volta à democracia. Na época, disse ao Estado que não comentaria a pesquisa. "Não seria uma atitude polida. O que eu espero da História é que diga que fui uma boa pessoa e lutei por minhas convicções." Sua última aparição pública foi em outubro, quando foi homenageado com um busto na Casa Rosada por Cristina Kirchner.