''Mundo não cresce mais como antes da crise''
Para especialista de Berkeley, potencial de crescimento foi reduzido permanentemente pelo estrago causado pela crise
Especialista em economia e finanças internacionais da Universidade Berkeley, na Califórnia, o historiador e economista Barry Eichengreen está mais pessimista sobre a economia americana do que o consenso das últimas semanas, que vê o fim da recessão como próximo. Para ele, a economia só terá uma retomada mais consistente em 2010, e o potencial de crescimento foi permanentemente reduzido pelos estragos da crise. Isso significa, para Einchengreen, que o resto do mundo, incluindo o Brasil, não vai conseguir crescer mais no mesmo ritmo de 2005 a 2007. Eichengreen falou ao Estado por telefone na quinta-feira:
Qual a sua visão sobre a recuperação da economia americana?
É diferente do consenso de importantes instituições de projeção econômica, segundo o qual a recessão está prestes a acabar ou já acabou, e o segundo semestre será bom. As pessoas olham para fatos como a queda nos pedidos de seguro-desemprego e concluem que as coisas estão melhorando. Eu não acredito. Não estou convencido.
Por quê?
A única fonte de crescimento nos Estados Unidos hoje é o investimento em estoques - as empresas estão começando a produzir de novo. Se elas recomeçam a produzir e recompõem seus estoques, isso se transformará numa recuperação sustentada apenas se alguém comprar o que produzem. Mas ninguém está comprando. O consumidor ainda está deprimido porque o desemprego continua subindo. As exportações americanas estão em queda e os gastos do governo são decepcionantes. Estamos começando a sentir os efeitos do pacote de estímulo do Obama, mas, ao mesmo tempo, os governos estaduais estão sendo forçados a enxugar seus gastos como loucos.
Há outros freios à recuperação?
Os bancos americanos ainda estão muito subcapitalizados para emprestar, e há o problema de ajuste estrutural, de mover recursos do setor financeiro e de construção para novas atividades. Temos um problema de endividamento pesado, que precisará ser resolvido. O mercado residencial vai levar alguns anos para começar a se recuperar. Todas essas são razões para que esta recuperação seja decepcionante comparada com outras.
Quanto os Estados Unidos vão crescer nos próximos anos?
Não faço previsões numéricas. Eu diria que o potencial de crescimento provavelmente foi reduzido permanentemente pelo estrago causado pela crise. Nós sairemos dessa crise com uma relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) de 80%, vindo de 40%, e isso vai significar impostos mais altos, juros mais altos e crescimento potencial mais baixo. Acho que um bom palpite é que podemos ter uma recuperação sustentada em 2010 e retornar ao crescimento potencial, mas em nível mais baixo, em 2011.
Países emergentes, como a China, não poderiam suprir a demanda por produtos americanos que se perdeu com o menor consumo interno?
Acho que isso é desejável, e ajudaria. Mas é importante lembrar que a economia chinesa é apenas um terço da americana, em taxas de câmbio de mercado, que é o que importa para o comércio internacional. E Índia, Brasil e Rússia juntos são ainda menores como fração do tamanho das economias dos países ricos. Então, acho que mais estímulo de demanda pela China, o que ela efetivamente tem feito, ajuda. Mas isso pode por si mesmo resolver o problema dos Estados Unidos? Não, não pode.
Os Estados Unidos deveriam ter uma nova rodada de estímulo econômico?
Acho que o argumento econômico a favor seria o de que a economia foi atingida por mais choques negativos desde que adotamos o primeiro estímulo, e o contra-argumento seria o de que já estamos acumulando muitas dívidas e temos um déficit muito grande. Mas todos os argumentos políticos apontam na mesma direção: houve uma nova pesquisa esta semana, que mostrou que dois terços da população americana se opõem a um novo estímulo. O Congresso, eu acho, simplesmente não vai concordar com um novo estímulo neste momento. Então, podemos discutir economicamente, mas politicamente não vai acontecer.
Por que o pacote de estímulo é impopular?
Há preocupação com o déficit e a dívida do setor público. Se tivéssemos feito um trabalho melhor nos Estados Unidos em termos de mostrar como vamos resolver nosso problema no futuro, como faremos a consolidação fiscal depois que a crise terminar, haveria mais vontade agora de usar a política fiscal mais ativamente. Infelizmente, o argumento sobre como vamos equilibrar o orçamento quando a recessão terminar não foi realmente feito. Então, há uma relutância em gastar mais dinheiro agora.
O sr. seria a favor, pessoalmente, de mais estímulo?
Sim, como o desemprego já está acima do que o governo Obama previu como pico quando o primeiro estímulo foi adotado, há necessidade de mais estímulo fiscal agora. Mas eu só aprovaria como parte de um plano de longo prazo no qual nós víssemos como combinar mais gasto agora com um plano para reequilibrar o orçamento e reduzir a carga de dívida após a crise. Pelo lado positivo, acho que a abordagem com credibilidade da questão da saúde (pelo governo Obama) é parte da solução da questão fiscal de longo prazo. Mas é preciso um posicionamento mais forte sobre como voltar ao equilíbrio, e inclusive sobre como pagar os novos programas sociais, muitos dos quais considero importantes e valiosos.
Com toda a injeção de dinheiro pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano), o sr. se preocupa com inflação no futuro?
Estou menos preocupado com a política monetária dos Estados Unidos do que com a política fiscal. O Fed tem todos os instrumentos de que precisa para reverter as ações de expansão monetária tomadas nos últimos dois anos. Por outro lado, me preocupo politicamente com projetos que existem no Congresso para reduzir a independência do Fed. Se o Fed se tornasse mais sensível à política, eu ficaria preocupado. Mas tenho esperança de que isso não vá acontecer.
Como o sr. vê os efeitos da crise nos países emergentes, e, particularmente, no Brasil?
Acho que o Brasil foi muito afortunado pelo fato de o consumidor doméstico permanecer animado ao mesmo tempo em que os mercados de exportação entraram em recessão. Isso é o que se deseja no curto prazo. Uma vez que a fonte externa de demanda declina, a demanda interna permanece forte. Mas funciona no curto prazo, por poucos anos. No longo prazo, o Brasil não pode permanecer estimulando o consumo e os salários domésticos sem que as exportações sejam estimuladas também. Então, será necessário que seus mercados de exportação, incluindo os Estados Unidos, comecem a crescer de novo. E, como eu disse, acho que, quando os Estados Unidos começarem a crescer de novo numa base sustentável, no próximo ano, será em ritmo mais vagaroso. E isso provavelmente significará que o resto do mundo, do qual o Brasil é parte, vai crescer mais devagar do que de 2005 a 2007.
Mas o fato de o Brasil e outros países latino-americanos não passarem por crises financeiras e cambiais como no passado não surpreendeu?
Houve um grande esforço para melhorar as políticas econômicas nos mercados emergentes e na América Latina em particular. Para equilibrar orçamentos, acumular reservas internacionais, reduzir a dívida pública, reduzir a exposição a moedas estrangeiras, controlar a inflação e adotar taxas de câmbio mais flexíveis. O que vemos é uma recompensa por esse investimento. Nada disso impede a recessão, nada é garantia contra futuras crises financeiras, mas fica claro que o esforço para melhorar as políticas econômicas compensou.
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