Muros mentais
Passados vinte anos da queda do Muro de Berlim, já houve tempo suficiente para muitas de suas lições serem esquecidas. Os que não haviam nascido ou eram pequenos demais não parecem entender a grandeza envolvida no fato. Mesmo que sejam informados de que representou o fim da divisão de uma cidade, o fim da Guerra Fria e o fim do socialismo, não compreendem nem quanto se sofreu e se lutou para que isso acontecesse nem quais esperanças queriam ser erguidas entre os escombros. A queda do muro não era apenas desejo de ver TV e comer hambúrguer, até mesmo porque ele implicava desejos de outras dimensões; era sobretudo a noção duramente assimilada de que autoritarismo e nacionalismo podem até iludir, mas a médio e longo prazo só trazem desvantagem e desgosto. Chega de conversa fiada: 1989 foi uma reação ao controle estatal e uma afirmação de que toda fronteira fechada é falsa.
Naquele mundo dividido, toda tirania começava pela restrição à informação e à expressão e mesmo os que lidavam com elas, como intelectuais, jornalistas e artistas, caíram em grande número na propaganda oficial de que a democracia era mais bem defendida por regimes autoritários, fossem ditos de esquerda fossem ditos de direita. E qualquer forma de abertura econômica, salvo por conveniência ideológica, era vista como entreguismo ou submissão. Lembro essas loucuras porque elas não têm sido lembradas ou então são lembradas como se fossem detalhes. Quando vejo, por exemplo, tantos autores confundindo os problemas que a internet revela ou amplia com um defeito inerente a ela, não às sociedades humanas, fico pasmo. Sim, devemos criticar a boataria e a palpitaria que se multiplicam como vírus nos meios virtuais; mas esquecer a necessidade de sempre celebrar a liberdade tem um custo muito maior.
Do mesmo modo, me espanta que tantas pessoas digam levianamente que "o Estado voltou" ou algo do gênero quando a crise financeira deflagrada em setembro de 2008 é debatida. Primeiro, repetindo, o Estado mínimo é algo que só existia na cabeça de pseudoliberais um dia batizados de neoliberais. Ao longo de todo o século 20, mesmo em países como os EUA, o Estado sempre foi chamado a socorrer bancos e empresas, por um lado, e pressionado a estender uma rede de proteção social, por outro. Na mão de conservadores como Ronald Reagan e Margaret Thatcher, favorecia mais a concentração do que a competição e se esmerava em moralismo e belicismo, além de promover o preconceito contra os imigrantes. Segundo, há uma enorme diferença entre um Estado que intervém no mercado em seu favor, pontualmente, e o velho, velhíssimo desenvolvimentismo, que supunha que seu papel era comandar a economia, como se dispusesse de dados e recursos suficientes para substituir seu dinamismo cultural.
Vide o governo Lula. Depois de um primeiro mandato mal qualificado de "pragmático", em que deu uma autonomia branca ao Banco Central para manter a mesma política econômica do governo anterior (juros altos e reservas em dólares para alegria de banqueiros nacionais e estrangeiros), no segundo tratou de gradualmente valorizar o também mal qualificado "planejamento". Fez acordo com o PMDB do oligarca José Sarney, expandiu seus domínios sobre fundos de pensão, bancos estatais, monopólios e sindicatos - toda a burocracia corrupta e politizada que se dependura nos nossos impostos - e, claro, atraiu os "amigos do rei" para patrocinar compras, fusões e obras. No semicapitalismo brasileiro, os empreiteiros continuam a distribuir as cartas. Se a jogatina tiver um veludo de amparo aos pobres, então, não há quem possa com ela.
Qualquer crítica, como se sabe, não passa de "elitismo", "torcer contra" e "pensar pequeno". Sendo esta uma sociedade cujas ideias ainda são em boa parte determinadas pela agenda oficial, é cada vez mais comum ouvir também que não há problema nenhum em ser nacionalista; afinal, "os americanos são nacionalistas, os franceses são nacionalistas", etc. Bem, uma coisa é saber que o mundo não é um só, reconhecer o sentimento de origem e tratar de defender os próprios interesses porque ninguém mais o fará inocentemente. Outra coisa é achar que sua pátria é o centro do mundo, que seu povo é um povo eleito (pela raça, natureza, língua ou história), e vender a imagem falsa de que estamos à porta do Paraíso. Os mesmos que hoje elogiam o nacionalismo de certos países criticavam, duas ou três décadas atrás, seu ímpeto imperialista.
Há, em suma, um aspecto humanista na queda do muro que tem sido esquecido. Aquela foi uma festa da liberdade em todos os sentidos - econômica, política e moral. Não se tratava apenas de uma defesa do mercado e do consumo, mas também de um alerta contra a natureza do poder. A defesa corrente do estatismo, além de desconsiderar a história do capitalismo democrático (em que Estado e mercado vivem em contínua tensão, mas não em mútua exclusão), põe de canto o fator mais importante: a permanente necessidade de cercear o poder, de conter sua vocação de inspirar o que há de pior na chamada natureza humana. A democracia não é apenas o sistema menos ruim que a humanidade concebeu, mas também aquele que mais resistência pode oferecer a suas próprias distorções. Que os muros mentais sejam derrubados.
UMA LÁGRIMA
Nenhum autor de obra importante pode evitar o estrago de seus seguidores... De Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês morto aos 100 anos na terça passada, se disseram coisas que qualquer leitor atento de seus principais livros sabe que não são inteiramente certas. Ele não foi esse relativista radical e crente no bom selvagem que os professores descreveram nas matérias da imprensa. Sim, sua grande contribuição foi lembrar que os mitos revelam sistemas de pensamento, com suas lógicas próprias (O Pensamento Selvagem), não apenas crendices ou fantasias, e que como tal organizam as relações sociais, o que mostrou no caso dos ameríndios em contraste com os indo-europeus (Tristes Trópicos). Mas ele afirmou que é um erro supor que os índios estejam mais próximos da natureza (O Cru e o Cozido), exaltou sempre a semelhança entre as culturas e não suas diferenças (Estruturas Elementares de Parentesco) e foi cultor dos chamados produtos da civilização, como a pintura de Poussin e a música de Rameau (Olhar Escutar Ler, que comentei na semana passada).
Também é preciso lembrar que o estruturalismo foi superado em muitos aspectos, por ser um tanto idealista em suas classificações sem o devido peso ao subjetivo e ao aleatório (em especial na crítica literária). No caso de Lévi-Strauss, isso se traduziu na definição da proibição ao incesto como ponto de contato único entre natureza e cultura, o que a linhagem que vai de James Frazer a Clifford Geertz mostrou ser muito limitado. No entanto, sua percepção de que o pensamento funciona por antinomias - por oposições derivadas da natureza e de suas interpretações históricas -, tanto entre os ditos selvagens quanto entre os ditos civilizados, tem tido confirmação naquilo que ele menosprezava, a neurologia de matriz evolucionista. Como Montaigne, seu ídolo, ele defendia a suspensão do juízo diante de valores diferentes, mas não abdicava de ter seus valores e juízos, muitos deles bastante clássicos. Essa é raiz da complexidade de sua obra, a qual nenhum antropólogo pode ignorar.
HAI KAI DO TOMARA QUE CAIA
Beleza no vestido -
Não cabe em palavras
Nem no vestido.
POR QUE NÃO ME UFANO
Fico me perguntando o que o turista que vem para o Brasil com a imagem de um lugar de pessoas alegres, miscigenadas e desreprimidas deve pensar ao saber de fatos recentes como os seguintes: um casal de idosos em Fortaleza acusa um pai italiano de abusar da filha porque lhe deu um beijinho na boca (e o sujeito ainda fica preso três semanas); um governador de Mato Grosso do Sul diz que estupraria o ministro do Meio Ambiente em praça pública (que macho, não?); e uma estudante da Uniban sofre assédio coletivo por usar um vestido vermelho curto (ainda havendo quem comente que ela não estava com a roupa adequada ao ambiente). Não, decididamente, meu caro Oswald de Andrade, a antropofagia não nos une.
Aforismos sem juízo
Toda autoimagem mente.
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