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Nas cordas de Django

No seu centenário, festivais homenageiam este cigano que reinventou o violão no jazz

23 de janeiro de 2010 | 0h 00
Garth Cartwright - O Estadao de S.Paulo

Há exatamente 100 anos, numa encruzilhada belga, nascia uma criança num carroção de ciganos. O bebê foi batizado "Jean", mas, para os seus, ele sempre foi Django, derivado de um verbo do idioma roma cujo significado seria: "Eu desperto." Jamais um nome foi atribuído de forma tão apta: passado um século, Django Reinhardt continua sendo o maior instrumentista de jazz já saído da Europa e o mais celebrado dos ícones ciganos. O fato de ele ter revolucionado a forma de tocar violão com os dois únicos dedos que funcionavam na mão esquerda - ele perdeu num incêndio o movimento nos demais - só acrescenta à lenda de seu nome.

Reinhardt foi, de fato, um personagem lendário. Jeff Beck, guitarrista mais do que familiarizado com técnicas virtuosas, chamou-o de "mais impressionante guitarrista já visto (...) Django era um fenômeno, não há nada de normal a respeito dele, seja como pessoa ou como instrumentista".

Praticamente todos os mestres do violão e da guitarra o homenagearam: B.B. King, Julian Bream, Hank Marvin, Robert Fripp e Carlos Santana estão entre seus fãs; Jimi Hendrix formou sua Band of Gypsies em homenagem a Reinhardt. Sua música e sua imagem são inspirações atuais: a combinação de bigode fino, gravata e roupa elegante usada de maneira desleixada é, até hoje, uma das preferidas entre os boêmios.

Michael Dregni, autor da biografia Django - Vida e Música de Uma Lenda Cigana (Oxford USA Trade), publicada em 2004 e sucesso de vendas nos Estados Unidos, diz que o interesse pelo guitarrista cresceu nos últimos anos. "Talvez a alegria do jazz de Django ressoe em resposta aos nossos tempos difíceis", diz Dregni. "No balanço do seu jeito simples de tocar, as pessoas escutam uma espécie de sinceridade musical, reduzida aos elementos básicos da beleza melódica e da habilidade do instrumentista."

Sua música soa animada e inovadora, enquanto evoca a Paris da era do jazz. A família Reinhardt era nômade, tendo viajado a lugares tão distantes quanto a Argélia. O pai de Django fazia cestos, era malabarista e também um multi-instrumentista talentoso, e sua mãe, uma excelente dançarina. Abrindo a porta de trás de seu carroção (do tipo conhecido como vurdon), o casal entretinha as vilas pelas quais passava, ganhando dinheiro, recebendo presentes e conquistando os habitantes.

Quando seu pai abandonou a jovem família, a mãe de Django manteve o vurdon na estrada, instalando-se nos arredores de Paris durante o inverno. Ela fazia cestos e confeccionava joias a partir dos cartuchos de bronze vazios que Django e seu irmão mais novo, Joseph, conhecido como Nin Nin, recolhiam nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial.

Apesar de ter se matriculado duas vezes na escola, Reinhardt nunca recebeu educação formal, rezando em vez disso pela cartilha dos ciganos roma: "Aquele que viaja, aprende". O pai, o tio e o restante dos ciganos que viajaram com ele o ensinaram a tocar violino, o mais prático dos instrumentos musicais ciganos - portátil e adaptável - e aos 7 anos ele já integrava a banda de música dançante do pai. Aos 12 anos, ele ganhou um banjo de um músico cigano seu amigo. Autodidata, começou a trabalhar poucos meses depois nos agitados salões de dança de Paris. Lá ele aprendeu a tocar musette, estilo musical que misturava sabores da música folclórica francesa com o tango, a polca, as valsas e o novo estilo americano, o jazz. Todos que ouviam Django tocar concordavam: o jovem cigano era um prodígio.

Reinhardt tornou-se sensação da cena underground parisiense e, em outubro de 1928, o britânico Jack Hylton - líder de uma orquestra de jazz considerada na época a mais popular da Europa - veio a um salão de dança no bairro de Belleville para escutar o instrumentista adolescente. Hylton ofereceu imediatamente emprego a Reinhardt, mas, naquela noite, o carroção onde ele morava com a mulher, então grávida, pegou fogo. Django feriu-se e enfrentou a possibilidade de jamais poder tocar de novo. Joseph deu-lhe um violão para que ele se distraísse durante a recuperação e Reinhardt desenvolveu técnica adaptada para a mão esquerda com dois dedos inválidos.

Criando novos acordes com um mínimo de notas, Reinhardt usava os dedos paralisados para segurar o violão enquanto descobria formas de dedilhar tocadas na vertical, e não na horizontal, redefinindo o que poderia ser tocado no instrumento.

Curado, Reinhardt descobriu ter perdido a mulher, o emprego, o carroção e o interesse de Hylton. Voltou a tocar nas ruas e, em 1931, em Toulon, ele e o irmão Joseph atraíram a atenção do pintor Emile Savitry. O artista ficou impressionado com a destreza deles e se tornou seu mecenas, ajudando-os a se firmarem na cena parisiense, na qual Reinhardt despontou novamente como sensação.

No verão de 1934, a parceria que definiria a vida profissional de Reinhardt foi estabelecida quando ele conheceu Stephane Grapelli, violinista franco-italiano que também cultivava uma paixão pelo jazz americano. Eles formaram o Quintette du Hot Club de France e foram pioneiros no jazz com instrumentos de cordas (diferente do estilo americano, mais afeito aos metais). Seu status era reconhecido pelos músicos americanos que visitavam o país, conhecedores do talento dos músicos do Hot Club - Louis Armstrong e Coleman Hawkins tocaram com eles.

Antes de Reinhardt, o violão era um instrumento principalmente rítmico. Ele explorou todas as suas possibilidades melódicas, reinventando temas do jazz americano, músicas populares, melodias clássicas, valsas russas e temas do folclore roma num ataque frenético e dinâmico que misturava todos esses estilos naquilo que hoje chamamos de "jazz cigano", ou Gypsy Swing - música quente feita para dançar.

Com a guerra, a parceria entre Reinhardt e Grapelli chegou ao fim. O conjunto Hot Club estava em Londres quando o conflito teve início: Grapelli escolheu ficar, Reinhardt voltou para Paris, onde sobreviveu durante seis coloridos anos. Talvez tenha sido apropriado que, depois de sobreviver a tanto, a própria natureza desconfiada de Reinhardt provocasse sua morte prematura em 1953; depois de se recusar a ir ao médico para tratar de dores de cabeça persistentes, ele sofreu um derrame fulminante aos 43 anos.

Sua lenda, no entanto, continua viva, e festivais em sua homenagem são realizados em maio na Bélgica e, em junho, na França, além das homenagens prestadas todo o ano em quatro endereços nos EUA. Mas o International Gypsy Swing Guitar Festival - que termina na segunda, em Londres - é a primeira tentativa britânica mais séria de celebrar o seu legado.

O festival de nove dias traz não apenas o melhor de Django, como também os mais destacados instrumentistas de violão cigano da atualidade. "Existe uma forte tradição de violonistas ciganos na França, Bélgica e Holanda, e acho interessante a forma como interpretam a música de Django, imprimindo a própria personalidade às melodias dele, mantendo uma parte viva de sua cultura", diz Sylvia Rushbrooke, do QuecumBar, onde é realizado o festival (www.quecumbar.co.uk).

"A música é, com frequência, a única coisa que resta a muitas famílias ciganas, pois outras tarefas tradicionalmente desempenhadas por ciganos - comércio de cavalos, confecção de cestas - caíram no esquecimento. Os garotos começam a aprender com 6 ou 7 anos. Quase nunca são ensinados a ler partituras; é tudo transmitido pela audição. O número de mulheres entre os instrumentistas é pequeno porque raramente elas têm chance de passar 6 ou 7 horas por dia treinando. A cultura cigana ainda é muito patriarcal. O jazz cigano é muito alegre e dinâmico. Levanta o humor."

A lenda de Django deve continuar no imaginário contemporâneo por algum tempo. A biografia de Dregni virou roteiro de cinema e Johnny Depp deve viver Reinhardt. O resultado pode ser um filme notável: o gênio do violão que apostava tudo o que ganhava, preferia as carroças às mansões, vivia apenas para o momento e nunca parava de inovar. O violonista cigano interpretado por Depp no filme Chocolate foi inspirado em Django, mas é difícil imaginar o narciso americano transmitindo a exuberância invencível de Reinhardt. Não que isso importe: a música transmite a magia do homem. Feliz centésimo aniversário, Django!