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Nem líbios sabem o que fazer da liberdade

Democracia, teocracia islâmica ou nova ditadura? Os líbios nunca se perguntaram. Era preciso antes aniquilar Kadafi fisicamente

21 de outubro de 2011 | 3h 01
LOURIVAL SANTANNA - O Estado de S.Paulo

"O irmão da minha mulher pertence aos Lejan Thawria", contava o topógrafo Nasser Abia Khris, de 33 anos, referindo-se aos Comitês Revolucionários, a rede de espiões e milicianos que ajudava a sustentar o regime de Muamar Kadafi. "Ele (o cunhado) me perguntou: 'O que você fará se Kadafi vencer?'", questionou Khris, em 11 de setembro. "Vou vender minha casa. Ela vale 300 mil dinares. Conseguirei 50 mil nela. Vou embora da Líbia."

Morte de Kadafi permite que líbios sejam donos do seu destino - Thaier al-Sudani/Reuters
Thaier al-Sudani/Reuters
Morte de Kadafi permite que líbios sejam donos do seu destino


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Fazia quase três semanas que o Conselho Nacional de Transição (CNT) havia tomado Trípoli, e agora avançava sobre os últimos redutos de Kadafi. Khris nem sequer pegara em armas. No início da revolução, seu irmão fora flagrado em um posto de controle militar levando 25 mil dinares (US$ 17 mil) que sua família havia juntado para ajudar os rebeldes de Zlitan, de onde provém. Mas ele sentia que se tinha exposto o suficiente para sua vida estar ameaçada, e fazia planos de contingência em caso da volta de Kadafi.

Dois dias depois da queda de Trípoli em 23 de agosto, Fawzie Hajjaj, uma viúva de 40 anos, festejava com seu filho, Khalil, de 9 anos, na Praça Verde, rebatizada Praça dos Mártires. "Só vamos dormir tranquilos quando ele (Kadafi) for preso", dizia Fawzie, cuja participação na revolução fora cuidar de manifestantes feridos na sua casa. "Cada um de nós ajudou como pôde", testemunhou sorrindo.

Os combatentes de Misrata que cercavam Sirte se impacientavam com a demora da liderança civil em autorizar o avanço sobre a cidade. "Nossa revolução não terá acabado enquanto não pegarmos Kadafi", assinalava Salem Daghmai, um taxista de 35 anos que se engajara nos combates desde o começo, em Misrata. "Será um desastre se Kadafi fugir do país, porque vai se rearmar e voltar. Precisamos pegá-lo."

Depois de suportar por quatro décadas as provas cotidianas de onipotência de Kadafi, na forma de uma violência sem controle nem limites, os líbios continuavam vivendo o pesadelo de seu retorno triunfal. O alívio dessa angústia pessoal é uma das sensações que eles experimentam agora com a notícia da morte do ditador. Inversamente, ela consolida uma sensação jamais experimentada pelos líbios: a de que eles podem ser donos do seu destino.

'Escravidão'. "Vivíamos como escravos", repetia, no início da revolução, o contador Sohaib Bogerma, de 27 anos, que trabalha para uma firma escocesa em Benghazi. "Nunca aceitaremos voltar para a vida que tínhamos. Agora vamos até o fim." Como ele, muitos integrantes da classe média, com bons empregos e vida confortável, explicavam que nada disso valia a pena, na falta da liberdade.

Muitos ocidentais têm perguntado o que os líbios farão com essa liberdade, que caminho tomarão: o da democracia, o de uma teocracia islâmica ou o de uma nova ditadura, dada a falta de familiaridade do mundo árabe-muçulmano com os valores democráticos. A verdade é que nem os líbios sabem. Ao longo dos últimos oito meses, eles se concentraram em aniquilar Kadafi, no sentido físico, o que foi conseguido apenas ontem.

Antes do levante iniciado no dia 17 de fevereiro, o máximo a que eles aspiravam eram reformas no interior do regime, como as prometidas por Seif al-Islam, filho e aparente sucessor de Kadafi. Os líbios nunca se perguntaram antes que papel gostariam que o Islã tivesse na política, ou que sistema político seria melhor para eles. Na Líbia, não havia perguntas. Apenas uma resposta: Kadafi.

Portanto, é uma questão totalmente em aberto que Líbia está nascendo hoje - assim como que Egito, que Tunísia e, muito provavelmente, que Síria brotarão da Primavera Árabe.