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Nova editora no mercado de ficção e não ficção

Líder em títulos jurídicos, a Saraiva entra neste mês na disputa pelo varejo

08 de março de 2010 | 0h 00
Raquel Cozer - O Estadao de S.Paulo

Poucos meses após a ruidosa chegada da portuguesa Leya ao mercado editorial brasileiro, outro grupo sinaliza a entrada na competição por obras de ficção e não ficção publicadas no País. Com a diferença de que a "nova" empresa já está há quase um século no Brasil, como livraria e editora. Líder na oferta de títulos jurídicos e uma das maiores em didáticos, com 22 milhões de exemplares vendidos em 2009, a Saraiva quer conquistar a partir deste mês espaço no varejo ? um mercado em expansão, na avaliação da editora. "Hoje há livros que vendem um milhão de cópias, é um negócio que passou a atrair uma empresa de grande porte como a nossa. Não entramos antes porque era um mercado pequeno se comparado com o jurídico e o didático", diz Thales Guaracy, diretor editorial contratado no fim do ano passado para coordenar esse trabalho.

O braço editorial do grupo lançará, até o final do ano, ao menos 65 títulos nesses segmentos. O grosso do investimento começa no segundo semestre, com a criação de um selo de reportagem e serviços e outro de ficção e não ficção. Nas próximas semanas, a editora começa a pôr no mercado títulos pelos selos Arx e Caramelo, que herdou da Siciliano ao comprar o grupo, em março de 2008, e que desde então estavam quase desativados, com lançamentos pouco expressivos.

Embora a proposta seja apostar em literatura de "alta qualidade", nas palavras de Guaracy, a entrada se dará com obras que frequentam listas de best-seller nos EUA e "livros de filmes", publicados na esteira de estreias cinematográficas e com cenas de longas nas capas, método bastante adotado também pela editora Record. Isso acontecerá em especial no selo infantil Caramelo. Um acordo de franchising com as americanas Disney e Dreamworks abrirá caminho para as obras oficiais, com bastidores da produção e história ilustrada, da animação Como Treinar o Seu Dragão, ainda neste mês, e de Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, entre outros. Pelo selo Arx, começam a sair títulos autobiográficos como A Mulher Que Não Consegue Esquecer ? Relatos da Síndrome de Hipermemória, da americana Jill Price, e Eu Sou Ozzy, de Ozzy Osbourne, hoje em terceiro entre os mais vendidos do New York Times.

A Saraiva adquiriu o Arx num mau momento do braço editorial da Siciliano. O selo havia perdido, nos anos anteriores, grandes autores, como Mario Vargas Llosa, Rachel de Queiroz e Adélia Prado, e best-sellers, como Lya Luft. Desde a compra, a Saraiva também vinha investindo pouco nele. Vampiros em Dallas, o segundo livro da série de Charlaine Harris que inspirou a televisiva True Blood, por exemplo, saiu em agosto de 2009 com uma capa que não remetia ao programa da TV a cabo, o que o fez passar quase despercebido. Vendeu 8.000 cópias, número relevante para um lançamento em território nacional, mas que deixa a desejar para uma autora que, só em 2009, teve 4,5 milhões de exemplares comercializados nos Estados Unidos. "Charlaine é hoje a quinta maior vendedora de livros dos EUA. Queremos fazer jus a isso por aqui", diz o diretor editorial. A reedição sairá neste mês, seguida de outros volumes da série, todos com atores de True Blood na capa.

A alta literatura fica para o segundo semestre. A Saraiva já fechou, para o novo selo de ficção e não ficção, títulos de autores nacionais "de peso" e clássicos de escritores internacionais renomados cuja obra quase não foi traduzida no Brasil, mas que a editora prefere ainda não divulgar. Por enquanto, anuncia nomes menos conhecidos por aqui, como o espanhol Juan Eslava Galan (com A Mula, que sai também simultaneamente ao filme homônimo), o guatemalteco Rodrigo Rey Rosa (O Material Humano) e a exilada cubana Wendy Guerra (Nunca Fui Primeira Dama).

Devem ser ainda reeditados livros do magro catálogo da Arx ? que hoje inclui cerca de 150 títulos ?, como a Ilíada, de Homero, na tradução de Haroldo de Campos, e obras de T.S. Eliot. A entrada no segmento literário será, é claro, tímida na comparação com o carro-chefe da empresa, que lança em média 800 títulos jurídicos, didáticos e de negócios por ano. Em relação aos e-books, a editora será cautelosa. Embora a livraria do grupo esteja prestes a lançar um ambicioso sites de download de livros, nos moldes da página da Barnes & Noble, Guaracy diz que os lançamentos digitais devem sair com alguns meses de atraso em relação às obras em papel.