
O apelo ao talento
06 de março de 2013 | 2h 06
Antero Greco - O Estado de S.Paulo
Muricy e Felipão não formam na ala dos amantes fervorosos do futebol ofensivo. Se sentem seguros com defesas bem protegidas - e se dão bem com essa convicção, com ou sem elogios gerais. Nenhum dos dois, porém, é toupeira e cada um a sua maneira sabe valorizar os jogadores acima da média, porque intuem o que representam para o sucesso do trabalho coletivo. Não por acaso fazem a apologia de Neymar.
A comparação entre os dois me ocorreu pelas declarações de ontem do técnico da seleção, que encheu a bola do astro do Santos. Felipão não ligou a mínima para a fama de cai-cai do rapaz ("Cai porque é bom, porque recebe muitas faltas"), ao mesmo tempo em que exaltou as qualidades dele e lhe prometeu liberdade para driblar e ousar com a amarelinha. ("Parece que aqui quem improvisa, quem é exceção, incomoda.")
Na mesma hora, lembrei-me de longo bate-papo com Muricy, em que ele me disse que jamais inibiria as diabruras de Neymar. "Um cara desses me faz ganhar um campeonato", justificou. E, de fato, meses depois, o Santos conquistava o Paulista e a Taça Libertadores. Teve em Neymar o maior destaque.
Os dois treinadores, em ocasiões diferentes, apelaram para a estratégia comum de estimular atletas que têm capacidade para desequilibrar. Felipão comportou-se de maneira semelhante 11 anos atrás, quando apostou tudo em Rivaldo e Ronaldo, quebrados e em baixa em seus respectivos clubes. Pois bateu o pé, insistiu em mantê-los no grupo, deu-lhes a condição de titulares - e o resultado final veio com os 2 a 0 sobre a Alemanha e o penta mundial na Ásia.
Neymar não é Rivaldo, muito menos Ronaldo. Mas desponta como único em condições de aproximar-se, em ousadia e criatividade, aos craques campeões. Com a carência de referências que há nestas bandas, faz sentido a rasgação de seda de Felipão. Mesmo com risco de jogar nele demasiada responsabilidade.
Se essa tática motivacional funcionará, o tempo dirá. Aposto em Neymar para a Copa de 2018, na fase madura da carreira. Mas, independentemente disso, estarei sempre a favor de quem joga bola, mesmo com algumas encenações escrachadas. Puritanos de variados quilates se preocupam com o moço e fecham os olhos para exímios simuladores, como Jorge Henrique, ou, num passado recente, Edilson e Edmundo. O inigualável Rei Pelé apanhou como cão danado, mas deu o troco inúmeras vezes ao provocar expulsões e ao cavar pênaltis como só artistas com a versatilidade dele são capazes. Faz parte, ora bolas.
Vagas abertas. A apresentação diante da Inglaterra assustou Felipão e, como ele havia prometido, foram feitas mudanças. Na lista para amistosos com Itália e Rússia, há oito nomes novos - se bem que Thiago Silva e Marcelo ficaram fora, anteriormente, por contusão. O zagueiro sobretudo é figura certa para a Copa.
O momento é propício para alguns aproveitarem a chance. A começar por Diego Cavalieri. No gol, Júlio César recuperou o lugar, mas estão abertas vagas para reserva. Na zaga, Dedé pode retomar trajetória boa interrompida no ano passado. Fernando e Luiz Gustavo têm caminho livre para ganhar espaço como marcadores. Diego Costa é dessas surpresas que técnicos às vezes tiram da cartola. Mais significativa do que a presença do atacante do Atlético de Madri é a ausência de Luis Fabiano. E Kaká é uma ponta de saudosismo da jornada memorável de 2002. Talvez seja o remanescente daquela família a chegar a 2014. Ou irá Ronaldinho. Ou nenhum dos dois.
A comparação entre os dois me ocorreu pelas declarações de ontem do técnico da seleção, que encheu a bola do astro do Santos. Felipão não ligou a mínima para a fama de cai-cai do rapaz ("Cai porque é bom, porque recebe muitas faltas"), ao mesmo tempo em que exaltou as qualidades dele e lhe prometeu liberdade para driblar e ousar com a amarelinha. ("Parece que aqui quem improvisa, quem é exceção, incomoda.")
Na mesma hora, lembrei-me de longo bate-papo com Muricy, em que ele me disse que jamais inibiria as diabruras de Neymar. "Um cara desses me faz ganhar um campeonato", justificou. E, de fato, meses depois, o Santos conquistava o Paulista e a Taça Libertadores. Teve em Neymar o maior destaque.
Os dois treinadores, em ocasiões diferentes, apelaram para a estratégia comum de estimular atletas que têm capacidade para desequilibrar. Felipão comportou-se de maneira semelhante 11 anos atrás, quando apostou tudo em Rivaldo e Ronaldo, quebrados e em baixa em seus respectivos clubes. Pois bateu o pé, insistiu em mantê-los no grupo, deu-lhes a condição de titulares - e o resultado final veio com os 2 a 0 sobre a Alemanha e o penta mundial na Ásia.
Neymar não é Rivaldo, muito menos Ronaldo. Mas desponta como único em condições de aproximar-se, em ousadia e criatividade, aos craques campeões. Com a carência de referências que há nestas bandas, faz sentido a rasgação de seda de Felipão. Mesmo com risco de jogar nele demasiada responsabilidade.
Se essa tática motivacional funcionará, o tempo dirá. Aposto em Neymar para a Copa de 2018, na fase madura da carreira. Mas, independentemente disso, estarei sempre a favor de quem joga bola, mesmo com algumas encenações escrachadas. Puritanos de variados quilates se preocupam com o moço e fecham os olhos para exímios simuladores, como Jorge Henrique, ou, num passado recente, Edilson e Edmundo. O inigualável Rei Pelé apanhou como cão danado, mas deu o troco inúmeras vezes ao provocar expulsões e ao cavar pênaltis como só artistas com a versatilidade dele são capazes. Faz parte, ora bolas.
Vagas abertas. A apresentação diante da Inglaterra assustou Felipão e, como ele havia prometido, foram feitas mudanças. Na lista para amistosos com Itália e Rússia, há oito nomes novos - se bem que Thiago Silva e Marcelo ficaram fora, anteriormente, por contusão. O zagueiro sobretudo é figura certa para a Copa.
O momento é propício para alguns aproveitarem a chance. A começar por Diego Cavalieri. No gol, Júlio César recuperou o lugar, mas estão abertas vagas para reserva. Na zaga, Dedé pode retomar trajetória boa interrompida no ano passado. Fernando e Luiz Gustavo têm caminho livre para ganhar espaço como marcadores. Diego Costa é dessas surpresas que técnicos às vezes tiram da cartola. Mais significativa do que a presença do atacante do Atlético de Madri é a ausência de Luis Fabiano. E Kaká é uma ponta de saudosismo da jornada memorável de 2002. Talvez seja o remanescente daquela família a chegar a 2014. Ou irá Ronaldinho. Ou nenhum dos dois.
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