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O arquiteto dos jardins do Rio ganha exposição

Glaziou projetou a Quinta da Boa Vista e reformou o Passeio Público

01 de dezembro de 2009 | 0h 00
Clarissa Thomé, RIO - O Estadao de S.Paulo

Há 151 anos, o francês Auguste-Marie Glaziou chegou ao País para influenciar definitivamente o paisagismo brasileiro - ganhou a confiança do imperador d. Pedro II, projetou os parques da Quinta da Boa Vista, na zona norte, e da Aclamação (hoje Campo de Santana) e foi responsável pela reforma do Passeio Público, ambos no centro do Rio. Para arrematar, convenceu o imperador a fazer o replantio de flora nativa na Floresta da Tijuca, tomada, então, por pés de café, e foi fundamental para a publicação do livro Flora Brasiliensis, do botânico alemão Karl von Martius, que reuniu mais de 22 mil espécies de plantas. Em homenagem a sua história, o Jardim Botânico do Rio dedica uma exposição ao trabalho do paisagista, no fechamento do Ano da França no Brasil.

Um século e meio depois de sua chegada, os parques que criou, inspirados no jardins ingleses, ainda são oásis em meio ao caos da cidade - e estão bem preservados. O maior deles, com 155 mil metros quadrados, é a Quinta da Boa Vista, jardim do palácio imperial, onde hoje funciona o Museu Nacional. Ali, Glaziou traçou caminhos sinuosos, combinou arbustos de diferentes tamanhos e, a pedido de d. Pedro II, fez a alameda principal em linha reta, emoldurada por sapucaias.

Hoje, o jardim, com suas estátuas, lagos, pontes e cascatas, é importante área de lazer da zona norte do Rio, onde é possível alugar triciclos e caiaques. "Glaziou sempre teve a intenção de criar locais em que a pessoa não percebesse que está na cidade, que era suja, com problemas de esgoto", explica a arquiteta da prefeitura do Rio Jeanne Trindade.

Dos três parques, o Passeio Público, projetado por Mestre Valentim e reformado por Glaziou em 1869, foi o mais deteriorado. No fim do século passado, já não era frequentado pelo público e teve peças importantes de bronze furtadas por vândalos. Em 2003, a prefeitura recuperou o espaço, devolveu a vegetação e recuperou estátuas - a Fonte de Tritão, que ficava no meio do lago e desapareceu, precisou ser toda refeita. Outras, por medida de segurança, ganharam réplicas, como o Cupido (a original está no Palácio da Cidade).

Já o Campo de Santana é o mais preservado, até por ser a sede da Fundação Parques e Jardins, órgão municipal do qual Glaziou foi o primeiro diretor. São canteiros irregulares, além de pedras, grutas, lagos e cascatas que imitam a natureza. "A abertura da Avenida Presidente Vargas (em 1949) fez o parque perder uma parte da sua área, mas a essência de Glaziou permanece", diz o vice-diretor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carlos Terra, autor do livro O Jardim no Brasil no século XIX - Glaziou Revisitado.

CALÇADAS

Se os trabalhos mais importantes do paisagista sobreviveram, alguns jardins sumiram completamente com o avanço da metrópole. Gramas e plantas deram lugar ao calçamento. É o caso da Praça 15, do Largo do São Francisco e da Praça Tiradentes - nesta sobraram alguns exemplares de pau-ferro, espécie de árvore plantada por Glaziou. "O Largo do São Francisco tinha características fortes dele, como os pavilhões e quiosques, que desapareceram com as reformas urbanas de Pereira Passos, no século 20", explica Carlos Terra.

Exposição Glaziou e os jardins sinuosos: Museu do Meio Ambiente (MuMA) - Jardim Botânico, Rua Jardim Botânico, 1.008; tel.: (21) 3204-2505. Até 15 de janeiro, de terça-feira a domingo, das 10h às 17h. Grátis