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''O Brasil precisa melhorar a infraestrutura''

20 de fevereiro de 2011 | 0h 00
- O Estado de S.Paulo

A escalada de reclamações contra os chineses não passou despercebida pela segunda maior economia do mundo. O governo de Pequim está disposto a reequilibrar o comércio entre as duas nações, mas o embaixador Qiu Xiaoqi tem certeza deque a origem dos problemas de alguns setores da indústria não está do outro lado do mundo.

"As indústrias brasileiras têm de fortalecer sua competitividade econômica e comercial. É preciso investir, melhorar a infraestrutura", afirmou o embaixador da China no Brasil em entrevista exclusiva ao Estado.

Os chineses também têm algumas pendências que esperam ser resolvidas pelo governo Dilma Rousseff. A principal é o reconhecimento da China como economia de mercado, promessa feita por Lula em 2004 e até hoje não cumprida.

A seguir, os principais trechos da entrevista.


O governo Dilma Rousseff está fazendo uma reavaliação das relações Brasil-China. Qual é a expectativa de Pequim?

As relações entre China e Brasil lograram um crescimento muito rápido nos últimos anos, sobretudo no campo político. O presidente Hu Jintao e o presidente Lula se reuniram com bastante frequência e isso levou a um alto nível de confiança política entre os dois países. A política externa da China dá muita importância ao Brasil. Temos uma série de coincidências em temas internacionais como ONU, mudanças climáticas e reforma do sistema econômico e financeiro mundial. Desde 2009 a China passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil e no ano passado ultrapassamos outros países e nos tornamos o primeiro investidor direto no País. A presidente Dilma Rousseff visitará muito em breve a China, e será uma ocasião na qual as autoridades máximas dos dois países poderão trocar plenamente suas opiniões sobre como vamos desenvolver nos próximos anos nossas relações.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil, mas enquanto vendemos matérias-primas os chineses vendem produtos industrializados. Como corrigir esse desequilíbrio?

A China importa aquelas matérias-primas de que precisa para seu crescimento, como minério de ferro, soja, petróleo e exportamos os produtos de que a economia brasileira precisa. No ano passado, o superávit comercial do Brasil com a China passou de US$ 5 bilhões. Não é uma cifra pequena. Nas relações comerciais com os Estados Unidos e a União Europeia, o Brasil tem déficit. Isso demonstra que o comércio entre Brasil e China é benéfico para ambos. Se não fosse, não faria sentido o crescimento tão rápido nos últimos anos.

Mas não há claro desequilíbrio na composição desse comércio bilateral?

Alguns amigos brasileiros se queixam de que o País exporta matérias-primas de baixo valor e importa muitos produtos da China de maior valor agregado. Temos de buscar uma resolução para isso com desenvolvimento comercial. Não é uma situação que pode mudar de um dia para o outro.

Há uma escalada das críticas contra os chineses por parte da indústria brasileira. O senhor teme que isso prejudique a relação entre os dois países?

Reconheço que alguns setores industriais publicaram muitos comentários negativos sobre o comércio com a China. Não estou de acordo com essas opiniões. Como disse, o comércio é benéfico para ambas as partes. Os problemas que hoje alguns setores industriais do Brasil encontram não têm origem na China. As indústrias brasileiras têm de fortalecer a própria competitividade econômica e comercial. É preciso investir, melhorar a infraestrutura. Escutei com muita alegria que o novo governo brasileiro reconhece que melhorar a infraestrutura do País é importante para uma maior competitividade econômica. Queria que os amigos do setor industrial, que estão preocupados com a concorrência da China, colocassem sua atenção na melhoria da competitividade, da infraestrutura.

O investimento em infraestrutura feito pelo governo chinês explica o aumento da competitividade da indústria local?

Hoje a infraestrutura na China é uma das melhores do mundo. Construímos mais de 100 mil quilômetros de autopistas. Já somos o segundo país com mais autopistas do mundo, atrás somente dos Estados Unidos. Somos a primeira potência em trens de alta velocidade. Temos 8 mil quilômetros de trem-bala e tudo isso nos últimos sete anos. E construímos também muitos aeroportos e portos. Nossa rede elétrica é a mais avançada do mundo. Tudo isso permite à China elevar a competitividade no mercado mundial porque com isso reduzimos os custos de produção.

O governo já deixou claro que pretende adotar medidas para conter a disparada das importações. Isso incomoda Pequim?

O governo brasileiro, conforme as notícias publicadas, está considerando algumas medidas para melhorar a situação comercial com o exterior. Espero que não sejam exclusivamente contra a China. O protecionismo comercial não é uma solução para os problemas. Temos um canal de diálogo muito fluido. Tenho conversado com as altas autoridades brasileiras, em diversos ministérios, e chego à conclusão de que o governo brasileiro está muito interessado em fortalecer suas relações políticas com a China e a cooperação comercial e econômica.

As empresas brasileiras reclamam das dificuldades de investir na China. Há disposição para diminuir essas barreiras?

É um equívoco achar que a China impõe barreiras aos investimentos estrangeiros em geral e, especificamente, do Brasil. As empresas brasileiras têm de ter mais valentia para entrar no mercado chinês. Sei que agora no Brasil alguns empresários falam chinês e entendem bastante bem a cultura chinesa e têm um modo de pensar como os chineses. Mas são casos bastante isolados. Nos últimos 30 anos a China foi o país em desenvolvimento que mais recebeu investimentos estrangeiros, e essa entrada maciça de recursos é um fator positivo para o crescimento do país. A China é um mercado no qual as empresas podem ganhar muito. Pode perguntar à Nokia, Samsung, LG e às empresas japonesas.

O governo dos EUA quer cooptar o Brasil para aumentar a pressão internacional contra a política cambial chinesa. Câmbio está na agenda Brasil-China?

O desequilíbrio comercial entre a China e os Estados Unidos não tem origem no yuan e muito menos o desequilíbrio econômico mundial tem na moeda chinesa a sua origem. Acho que o governo do Brasil reconhece que esses problemas não têm a ver com a China. Não estamos de acordo com a ideia de ser pressionados. Pressionar a China não é inteligente. A valorização do real tampouco tem origem na moeda chinesa. Portanto, para que falar sobre um problema que não tem a ver com a gente?

Em 2004, o governo brasileiro prometeu reconhecer a China como economia de mercado, mas isso não aconteceu. O senhor espera uma solução para esse problema agora?

Em 2004 o presidente Hu Jintao fez a primeira vista de Estado ao Brasil e, nas conversas com o presidente Lula, a parte brasileira se comprometeu a reconhecer a China como economia de mercado. Esse é um compromisso político sério e ao longo dos anos esperamos que fosse concretizado. Esperamos que seja resolvido o quanto antes pois, com a resolução dessa questão, vamos assentar uma base muito melhor para nossa cooperação no futuro.

O senhor espera uma solução ainda no governo Dilma?

Esperamos.

A China está empenhada em ajudar o Brasil a obter um assento permanente no conselho de segurança da ONU?

A China está a favor da reforma da ONU, com ênfase no aumento da representatividade dos países em vias de desenvolvimento. A reforma do Conselho de Segurança é uma questão muito complicada na qual temos de procurar o consenso mais amplo possível porque qualquer reforma da ONU tem de favorecer o fortalecimento do papel da organização.

A presidente Dilma tem uma postura diferente do presidente Lula quando o assunto é direitos humanos. Existe preocupação sobre a discussão desse tema?

Posso afirmar que nunca o povo chinês desfrutou de tanta liberdade como hoje. Mas nenhum país é perfeito nos direitos humanos. Isso também vale para a China. Temos muitas coisas que precisam melhorar. Estamos dispostos a trabalhar neste aspecto, fazer intercâmbios com outros países. Mas há algo importante: nenhum país tem o privilégio de se comportar como juiz na questão dos direitos humanos. Podemos discutir, trocar opiniões e pontos de vista, mas com base no entendimento recíproco. Impor seu ponto de vista aos outros, isso nós não aceitamos.



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