
O caos no ''terrível reino das mães''
No polêmico Anticristo, Lars Von Trier discute a guerra entre os sexos e o temor dos homens em relação às mulheres
Anticristo, filme de Lars von Trier, trata de um casal - Ele (Willem Dafoe) e Ela (Charlotte Gainsbourg) - cujo filho pequeno morre num acidente que ocorre enquanto os dois estão entregues ao gozo sexual. Isso desencadeia uma depressão na mãe, que é internada e medicada. Ele, que é terapeuta, assume a condução do caso da mulher, contrariando a opinião do psiquiatra que a trata. Usando técnicas da psicoterapia comportamental cognitiva, o marido explica para a mulher que ela está em processo de luto. O tratamento tem inicio na residência do casal, mas Ele acha necessário irem para a cabana que possuem na floresta. Ela estivera ali recentemente com o filho, recolhida para escrever uma tese acadêmica, cujo tema abordava a matança de mulheres na Idade Média, a queima de bruxas na fogueira.
Assista ao trailer de Anticristo
Na cabana, as coisas começam a tomar um rumo diferente do previsto pelo marido. Ele começa a ter experiências inusitadas, como o encontro com uma raposa que tem as vísceras à mostra e que lhe diz: "O caos reina". E descobre que desconhecia muitas coisas sobre sua mulher, como o fato de não ter ela concluído a tese. Ao lhe perguntar por que abandonara o trabalho, Ela responde que começara pesquisando as torturas sofridas pelas mulheres tidas como bruxas, mas desistira ao constatar que as mulheres eram de fato más e capazes de destruir os homens. O marido interpreta que ela teria se identificado com os agressores das mulheres e não se apercebe que Ela identifica-se com as próprias bruxas.
Na cabana, Ele percebe indícios anteriores de desagregação mental por parte dela. Encontra fotos do filho nas quais ele está sempre com os sapatos trocados. Isso esclarece um dado até então inexplicado que aparecera em sua autópsia - uma anomalia óssea em seus pés, de causa desconhecida. Ele conclui que durante muito tempo Ela colocara deliberadamente os sapatos trocados nos pés do filho, com o intuito de lhe provocar uma deformidade.
Somente então Ele entende que Ela tem um problema muito mais amplo do que ele imaginara. Em vez de esperada reação de luto à perda real do filho, Ela já estava gravemente perturbada muito antes, mergulhada num mundo delirante, identificada com malignas feiticeiras. Sem mais a explicação fácil do luto pela perda do filho, Ele e Ela se deparam com a loucura e seu mundo desconhecido e inexplicável em termos conscientes e racionais, frente ao qual os conhecimentos teóricos e práticos dele se revelam insuficientes. Instala-se então entre eles uma luta de vida e morte. Depois de atingi-lo nos genitais e mutilar os próprios órgãos sexuais, Ela tenta matá-lo. Ele consegue escapar. Ao iniciar seu caminho de volta para a cidade, é surpreendido por animais - entre eles, a raposa - bem como por uma multidão de mulheres, que passam por ele como fantasmas. Como Ela, Ele sucumbiu à psicose.
Embora o filme tenha uma grande riqueza de conteúdos por serem interpretados, a começar pelo título de amplas ressonâncias religiosas e filosóficas (Nietzsche), vou me deter naquilo que me parece ser o ponto central - a infindável batalha entre os sexos, evidenciada já no tema da tese da mulher e plenamente concretizada na relação do casal.
Para a psicanálise, a destrutividade e a sexualidade são as duas forças em permanente conflito que movimentam o psiquismo. Elas são simbolizadas e estruturadas em dois momentos cruciais - nas vivências primárias com a mãe e, posteriormente, na configuração triangular edipiana. Para que a transição do primeiro para o segundo momento possa chegar a bom termo, é imprescindível que o sujeito passe pela castração simbólica, que o faz sair da relação indiscriminada e fusional com a mãe e aceitar o outro, com suas diferenças, entre elas e da maior relevância, a diferença sexual. Cada sexo passa de forma especifica por este processo.
A partir deste contexto, no inconsciente, o homem tem dois motivos para temer a mulher. O mais recente em termos de desenvolvimento é o decorrente justamente da castração, cujo terror lhe é evocado pela visão do genital feminino. O outro motivo do temor que a mulher inspira no homem é mais arcaico e não é o medo da castração e sim o medo da aniquilação, da morte. Tal medo decorre de vivências muito precoces adquiridas pela criança no contato com uma mãe imaginada como não submetida à Lei, detentora de um poder absoluto, arbitrário e imprevisível, ao qual ela está completamente exposta em seu desamparo. É uma imago terrorífica da mãe, a mãe má, o seio mau de Melanie Klein, a mãe-bruxa, aquela que povoa o "terrível reino das mães" na acepção de Goethe no Fausto, expressão cuja pertinência não passou desapercebida a Freud.
Assim, quando a raposa diz para Ele que "o caos reina", estaria se referindo ao caos do reino das mães, o caos da ausência da Lei paterna, o caos das organizações mais primitivas do inconsciente que subjaz sob a superfície consciente, racional, lógica. A enigmática cena final, na qual aparecem muitas mulheres na montanha onde Ele está, talvez indique que, apesar de ter ele se livrado da mulher-mãe-bruxa, não pode mais escapar de seu poder, que retorna multiplicado. Não lhe restam mais saídas, está aprisionado no reino das mães, da natureza, da violência e da loucura.
Essa seria a vertente masculina do conflito, que é a mais explícita no filme. Do lado feminino, vemos que Ela expressa uma problemática fálica ao atacar os genitais do marido e se mutilar, além de se mostrar inteiramente identificada com a mãe bruxa pré-edipiana.
Embora Ela já apresentasse sintomas delirantes decorrentes desta identificação, Anticristo mostra como o trauma (a morte do filho) desestrutura completamente o casal, que regride de uma relação mais estável para uma disputa fálica pelo poder, involuindo até chegar aos modelos mais arcaicos e assustadores da relação com a mãe-bruxa, o que desencadeia um embate final.
Ao reatualizar em pleno século 21 o ritual medieval da queima de bruxas, Trier mostra a atemporalidade dos conflitos inconscientes que atormentam a humanidade, plasmando a sintomatologia individual, criando mitos e determinando até mesmo a própria história. Mais ainda, em Anticristo, Trier defende Freud e a psicanálise de maneira explicita ao mostrar as limitações da terapia comportamental cognitiva frente à complexidade da mente humana.
Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de O Psicanalista Vai ao Cinema I e II (Casa do Psicólogo), entre outros
Siga o @estadao no Twitter
- 01 Petrobras busca reajuste de combustíveis via ...
- 02 Para bispo, ministra da Secretaria das ...
- 03 Serra chama de 'lixo' livro sobre ...
- 04 Presidente do PT critica privatizações ...
- 05 Para Marta, aliança entre Haddad e Kassab em ...
- 06 Mercadante quer dar bônus para escola que ...
- 07 PT reage a FHC: 'Disputa ideológica sobre ...
- 08 FGV: País tem queda de 7,26% no número de ...
- 09 Japão mobiliza 900 soldados para ...
- 10 Retrospectiva 2011: Terremoto e tsunami matam ...
Grupo Estado
- Copyright © 1995-2011
- Todos os direitos reservados





