O centenário de um pioneiro
Especialista em urologia realizou em janeiro de 1965 o primeiro transplante renal com doador vivo voluntário do Brasil
Artigo
No dia 11 de agosto, a Associação Paulista de Medicina (APM), por meio de seu departamento de Urologia, prestou homenagem ao professor Jerônymo Geraldo de Campos Freire, reafirmando seus títulos de pioneiro dos transplantes renais e de órgãos do Brasil. A data marcou o centenário de nascimento, em Campinas, do oitavo filho do casal Norberto de Campos Freire, médico, e Balbina, dona de casa.
Aos 3 anos, Jerônymo Geraldo perdeu o pai, morto em decorrência de infecção pulmonar, e foi criado por suas irmãs e irmãos. Terminou o colégio Culto à Ciência, em Campinas, e em 1926 ingressou na Faculdade de Medicina da USP. Concluiu o curso em 1931, ajudando sua família escrevendo apostilas. Trabalhou em São Paulo até 1944, quando, após exame, foi o primeiro colocado em concurso para chefiar o Serviço de Urologia do Hospital dos Servidores do Estado no Rio de Janeiro. No Rio, trabalhou com iminentes urologistas, como Alberto Gentile, fundador da primeira Revista Brasileira de Urologia. Na época, Campos Freire já produzia trabalhos respeitados pelos colegas do Rio e de São Paulo, destacando-se os de cirurgia prostática.
Em 1951, prestou concurso de livre-docência na Universidade de São Paulo, conquistando o título e passando a exercer a urologia no Hospital das Clínicas da USP. Ali continuou a desenvolver pesquisas que, já na época, tinham repercussão internacional. Em 1953, competindo em concurso com quatro ilustres urologistas paulistas, conquistou o primeiro lugar, tornando-se professor catedrático de urologia da USP. Formou uma equipe que o admirava profundamente, e desenvolveu as primeiras grandes cirurgias urológicas: emprego de alças intestinais para substituir a via urinária, cirurgia das glândulas suprarrenais e até o primeiro autotransplante de rim do mundo.
Trazendo para seu grupo jovens nevrologista e após várias viagens ao exterior, conseguiu realizar em 21 de janeiro de 1965 o primeiro transplante renal com doador vivo voluntário do Brasil. Apesar de algumas tentativas malsucedidas dessa intervenção, seu trabalho sempre foi considerado, por revistas especializadas, como pioneiro no Brasil.
Seu pioneirismo foi tão marcante que, após a realização da cirurgia, apesar da repercussão favorável na mídia e nos meios científicos brasileiros, Campos Freire chegou a ser chamado pela Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas, que severamente o advertiu quanto à iniciativa pioneira de retirar um órgão de uma pessoa normal para doação. Na época, bem como nos 30 anos que se sucederam, seu mérito jamais foi contestado. Iniciava-se então a era dos transplantes de órgãos no Brasil, metodologia que hoje beneficia milhares de pacientes.
A classe médica brasileira deve ao professor Campos Freire o mérito de ser fundador de uma das melhores escolas urológicas do Brasil, cujos discípulos, até hoje, brilham no cenário nacional e internacional.
É PROFESSOR LIVRE-DOCENTE E ASSOCIADO DE UROLOGIA DA USP, VICE-PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE UROLOGIA E PRESIDENTE DO DEPARTAMENTO DE UROLOGIA DA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE MEDICINA. FILHO DO PROFESSOR JERÔNYMO GERALDO, PARTICIPOU DO PRIMEIRO TRANSPLANTE COMO INSTRUMENTADOR DO DOADOR. UM ANO ANTES, FEZ MAIS DE 40 TRANSPLANTES EXPERIMENTAIS EM CÃES, PARA PADRONIZAÇÃO DA TÉCNICA. HOJE, CONTINUA FAZENDO TRANSPLANTES RENAIS, TENDO SE ESPECIALIZADO EM DOENÇA DA PRÓSTATA.
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