Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias >
Início do conteúdo

O circo nos bancos da universidade

Pesquisa de fôlego de Erminia Silva resulta em livro relevante sobre o tema

31 de dezembro de 1969 | 21h 00
Beth Néspoli - O Estadao de S.Paulo

Quem viu não esquece o espetáculo O Auto do Circo, da Cia. Estável de Repertório, que a um só tempo fazia rir e comovia ao narrar a história de uma família circense desde sua chegada ao Brasil até constituir-se num grande circo. A peça retrata em cenas ora cômicas, ora dramáticas, o rigor do treinamento, a sabedoria transmitida pelos pais às crianças, os acidentes inevitáveis nos números perigosos, a atração e o preconceito que envolvia os circenses, as difíceis viagens por estradas de terras por todo o Brasil.

Muitos se encantaram com esse espetáculo que tinha texto de Luiz Alberto de Abreu. Poucos sabem que a principal fonte de inspiração do dramaturgo foi o livro de uma pesquisadora tão rigorosa quanto apaixonada pela arte circense: Erminia Silva. Ela é autora de Circo-Teatro, Benjamim de Oliveira e a Teatralidade Circense no Brasil. Não por acaso, o livro tem texto de apresentação de Abreu e será lançado na segunda-feira, às 19 horas, no Circo Zanni, em noite de festa circense, com direito até a apresentação de algumas cenas do Auto do Circo, com os atores da Cia. Estável.

O livro nasceu como tese de doutoramento de Erminia Silva na Unicamp. Não por acaso. Ela pertence a quarta geração da família circense Wassilnovich. Nasceu na cidade de Getulina, interior de São Paulo, onde sua mãe deu à luz a gêmeas enquanto o circo da família estava ancorado numa cidade próxima, Promissão. Até os sete anos, viajou com a família, mas a partir daí deixou o circo para estudar. ''''Minha família vivencia um debate que teve início na década de 50 envolvendo os estudos formais. Só era valorizado quem passava pelos bancos escolares, tinha diploma.'''' Os saberes de um sapateiro, alfaiate ou mecânico não tinham mais valor. ''''Éramos 17 primos, todos foram estudar, nenhum voltou a trabalhar no circo.''''

Erminia presta agora relevante contribuição a essa arte com uma pesquisa de fôlego, nesse livro de 435 páginas, que abarca a arte circense entre 1870 a 1910 no Brasil. Começa por destrinchar a história dessa atividade pouco antes do período em foco, na Europa do século 18, num tempo em que a definição ''''artista circense'''' não existia, na verdade, nem mesmo a de artista. Disseca a origem comum de bufões, bobos da cortes, atuadores da Commedia dell''''Arte, artistas de feiras e jograis, quando juntas ''''teatralidade, destreza corporal, dança, música, mímica e a palavra'''' - união que as artes cênicas contemporâneas voltam a anunciar, às vezes como novidade.

Mostra então como os cômicos começam a se destacar nas apresentações eqüestres e de que forma os caminhos vão se bifurcando, a concentração das chamadas especialidades ocorre, até que seja cunhada a expressão, ''''circo de cavalinhos'''', tantas vezes usada na imprensa brasileira de forma despreziva - como ela constata em sua pesquisa. Erminia não tira conclusões no abstrato. Debruçou-se com cuidado sobre jornais de época, sobretudo no Rio e em São Paulo, principal fonte por onde acompanha a formação e o desenvolvimento da atividade das diversas famílias, trupes e artistas em particular.

Seu estudo ressalta, sobretudo, a contemporaneidade dessa arte, a forma como ela dialogou com seu tempo - palhaços cantores gravaram os primeiros discos pela Casa Edison. O palhaço negro Benjamim de Oliveira, destaque no livro, ator, músico, cantor, cujo talento elogiado por autores teatrais como Arthur Azevedo, gravou muitos discos. E mais. Sua adaptação teatral para O Guarani, de José de Alencar, na qual interpretava o índio Peri, virou filme, infelizmente, perdido. Também foi intenso o diálogo do circo com o cenário teatral da época. Peças européias que faziam sucesso nos palcos logo ganhavam sua versão no picadeiro e Erminia explora em especial A Viúva Alegre, cuja adaptação dirigida por Benjamim mereceu artigo de Arthur Azevedo. Muito se critica, de forma bem negativa, os dramalhões e as comédias circenses. Interessante é perceber, no livro de Erminia, que essa era a dramaturgia dominante na época. Se é o caso de desqualificá-la, a culpa não seria do circo, mas da fonte onde ele bebeu. Um livro revelador que merece ser lido, e debatido.