O conglomerado de saúde
Nas últimas décadas, o Brasil passou por grandes transformações nas áreas demográfica, urbana e epidemiológica. A área da saúde foi fortemente impactada. No que diz respeito às alterações demográficas, a taxa de natalidade decresce e a expectativa de vida melhora consideravelmente, transformando o perfil da população brasileira, com um aumento significativo de idosos.
Já a respeito da urbanização, a taxa nacional saltou de 36% na década de 50 para mais de 80% hoje. A concentração urbana facilita a procura por diagnósticos e tratamentos, além de aumentar a eficiência da disseminação de informações sobre profilaxia.
As mudanças epidemiológicas, que muito se devem às alterações das rotinas de vida como, por exemplo, estresse, má nutrição, exposição à poluição, obesidade, transformaram o padrão de consumo de produtos e serviços de saúde no Brasil, de tipicamente subdesenvolvido, muito atrelado às doenças infecciosas, para um perfil mais próximo das economias desenvolvidas.
Formou-se um novo mercado consumidor de saúde no País, muito maior que o antigo e bem diferente nos padrões de consumo, já que grande parte desta expansão concentra-se no setor privado, com utilização de grande tecnologia. Em 2008, os gastos com saúde, segundo o Ministério da Saúde, foram de R$ 135 bilhões, sendo que apenas 36% deste total foram gastos pelo setor público.
O complexo da saúde encontra-se na vanguarda tecnológica e, por exigir mão de obra qualificada e concentrar grande número de pesquisas, torna-se um importante cluster. A demanda nas cidades maiores e mais ricas e a interação entre médicos especialistas, prestadores de serviços, indústrias, instituições de ensino, fornecedores, laboratórios e hospitais levam a uma concentração geográfica destas atividades, o que permite o aumento de eficiência.
Um importante exemplo de cluster de saúde é o caso de Houston, nos Estados Unidos. O Texas Medical Center (TMC) é a mais alta densidade de facilidades clínicas no mundo, onde estão localizadas mais de 49 instituições médicas, incluindo 13 hospitais, duas instituições de especialidades médicas, duas faculdades de medicina, quatro de enfermagem, além de escolas de odontologia, saúde pública e farmácia.
A capital paulista é o cluster mais bem consolidado no País, contando com mais de 170 hospitais e 22 instituições de ensino superior de medicina e/ou enfermagem.
No interior do Estado ainda existem outros importantes centros, que se destacam pela prestação de serviços altamente especializados e/ou pela indústria médico-odontológica, com destaque para Campinas (cluster já desenvolvido) e Ribeirão Preto (cluster em forte expansão), onde há uma grande oferta de mão de obra especializada e abrange uma área economicamente mais desenvolvida.
Divisão. O setor de saúde pode ser divido em três partes interligadas, conforme mostra o diagrama abaixo: suporte, indústria e serviços.
Em suporte, encontram-se as atividades que fazem parte indiretamente do cluster, como, por exemplo, os seguros de saúde, educação, limpeza e alimentação hospitalar, que tendem a crescer para acompanhar o desenvolvimento do setor principal.
A indústria engloba a fabricação: farmacêutica, de vacinas, de hemoderivados, de reagentes para diagnósticos e de equipamentos médicos e insumos. Na indústria de equipamentos encontra-se boa parte dos novos investimentos em tecnologia, que vão desde o implante de microchips para controle de próteses aos robôs cirúrgicos controlados a quilômetros de distância, passando pelos complexos aparelhos de diagnósticos. Algumas das maiores empresas do mundo têm nesta área divisões muito importantes (GE, Philips, Siemens, etc).
Por último, o segmento de serviços, que pode ser dividido em outras quatro áreas:
1. Promoção, que inclui todas as variáveis ligadas a nutrição, estilo de vida, hábitos e informação de saúde para a população. Este mercado tem crescido muito nos últimos anos, principalmente com a expansão de academias e centros de todos os tipos, lojas de produtos orgânicos e naturais, equipamentos, etc.
2. Prevenção, na qual se enquadram consultas médicas, check-ups, atividade física, reabilitação cardiovascular e saúde da família. Com maior acesso à informação, as pessoas deixaram de procurar ajuda médica apenas quando apresentavam algum problema e passaram a ir periodicamente ao médico, já que muitas das patologias modernas são assintomáticas na maior parte do tempo.
3. Diagnóstico, principalmente exames médicos e laboratoriais, que tiveram sua procura intensificada pelo aumento dos beneficiários de planos de saúde particulares.
4. Tratamento, que abrange rede hospitalar, produtos farmacêuticos, acupuntura, fisioterapia, psicologia, fonoaudiologia, entre outros. Nesta área, juntamente com a indústria, está alocada a maioria dos grandes players do setor de saúde.
Os seguros particulares de saúde se pautaram no aumento da formalização da economia, visto que 74 % destes planos são de caráter coletivo (contrato assinado entre uma pessoa jurídica e uma operadora para assistência médica de funcionários). São mais de 40 milhões de clientes, ainda fortemente concentrados na região Sudeste, onde a renda e os empregos em carteira são superiores as médias nacionais.
Os planos ainda são muito pulverizados e regionalizados, mas eles vêm passando por um processo de verticalização, via aquisição de hospitais e redes de diagnósticos, e de consolidação.
Dentro do setor de serviços diretos de saúde destacam-se as redes hospitalares, os centros de diagnósticos e as drogarias.
Os grandes centros hospitalares têm investido em centros médicos integrados, no qual é possível encontrar grande parte dos serviços médicos, inclusive pequenos procedimentos cirúrgicos, dentro dos Hospitais Dia neles instalados. O atendimento internacional surge para os hospitais de ponta, que são acreditados pela Joint Comission International, uma das mais importantes certificadoras de saúde do mundo, como um novo nicho de expansão. Hospitais como o Einstein e o Sírio-Libanês, em São Paulo, já atuam nesta área, que deve crescer substancialmente a partir de agora.
No ano de 2006, o mercado internacional de viagem para a realização de tratamentos médicos ultrapassou US$ 60 bilhões, incluindo os custos com deslocamento, hospedagem e tratamentos médicos; a expectativa é que em 2012 este valor ultrapasse US$ 100 bilhões, já que o crescimento anual é superior a 10%, ultrapassando 20% em alguns países. A Tailândia, o maior player do setor, recebe anualmente mais de um milhão e meio de estrangeiros que realizam algum procedimento médico. Estima-se que, no Brasil, este número já ultrapassou 50 mil pacientes por ano.
Diagnóstico. Os centros de diagnósticos, outro grande player do setor, ainda possuem uma estrutura pulverizada e regionalizada. Embora sua demanda tenha sido ampliada com a expansão dos planos de saúde, estes vêm se tornando um importante concorrente por causa do aumento de laboratórios próprios.
Este mercado, de mais de R$ 11 bilhões, possui um forte potencial de concentração, mas devido ao sistema de confiança, que é muito importante para o setor, as grandes empresas adotam uma postura de manter as marcas locais para não desestabilizar a subsidiária.
Por fim, o mercado de farmácias, que movimenta R$ 30 bilhões, com um total de 64 mil lojas, vem passando por um forte processo de transformação, com entrada de fundos de investimentos, fusões e aquisições.
Este processo é consequência das novas condições de concorrência, que incluem a entrada das grandes redes de supermercados, que dispõe de forte poder de barganha, na disputa por uma fatia desse mercado. Hoje, elas detêm 3% do mercado.
A expansão do conglomerado da saúde implica na elevação do padrão tecnológico e de inovações; na alteração da estrutura dos mercados fornecedores, consolidação e nas exigências de grande volume de trabalho altamente qualificado. Implica também em maior concentração regional de atividade, especialmente no Estado de São Paulo.
Este é mais um exemplo (como o caso da cana, que já foi discutido em artigo anterior) de como os setores, hoje, são muito mais complexos e dinâmicos do que no passado, o que implica que analisá-los apenas pela ótica da produção não é mais adequado.N
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