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O coronel que trouxe uma luta indígena à PM

Luiz Eduardo Arruda aprendeu sobre índios do Xingu com o sertanista Orlando Villas-Boas e adotou os duelos de Huka-Huka no treino dos novos soldados

18 de setembro de 2011 | 0h 00
William Cardoso - O Estado de S.Paulo

Ossibá. Assim é feito o chamamento para os duelos de Huka-Huka (pronuncia-se ruca-ruca) entre os povos indígenas do Xingu. Desde maio deste ano, também é possível ouvir esse grito no alto da Serra da Cantareira, zona norte de São Paulo. É o sinal do coronel Luiz Eduardo Pesce Arruda, de 51 anos, para o início do enfrentamento dos futuros soldados da Polícia Militar em um treino com inspiração indígena e carregado de simbolismo, como o respeito à diversidade e às minorias.

Estudioso. Os ideais pacifistas do coronel Arruda ganharam forma no Huka-Huka, luta sem pontuação nem juiz e referência para a nova geração - Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE
Estudioso. Os ideais pacifistas do coronel Arruda ganharam forma no Huka-Huka, luta sem pontuação nem juiz e referência para a nova geração

Coronel Arruda é um estudioso da corporação, tido pelos colegas como um filósofo fardado. Mas é também um policial de ação, além do plano das ideias. Tanto que introduziu na Escola Superior de Soldados a milenar luta indígena como forma de dar um norte pedagógico para quem está ingressando na carreira. "Muitas vezes, o soldado vem de famílias com ranço de racismo, de discriminação religiosa. Aqui tem de aprender que, a despeito da etnia, da orientação sexual e da religião dele, quando em serviço, deve atender as pessoas sem privilégio."

O interesse por povos indígenas surgiu nos anos 1980, quando fez uma viagem para a Amazônia e, na fronteira com a Guiana Francesa, viu índios sendo explorados por garimpeiros.

Na década seguinte, durante reuniões do Conselho de Segurança (Conseg) da Lapa, o coronel da PM conheceu o sertanista Orlando Villas-Boas, paulista que dedicou mais de 50 anos à vida na selva, com os indígenas. Com o sertanista, aprendeu mais sobre os povos do Xingu e conheceu o Huka-Huka. Desde então, conheceu várias tribos, sempre com o enfoque nos problemas sociais.

"Ele (Villas-Boas) sempre foi um grande amigo da PM", afirma Arruda.

Estimulado pela viúva do sertanista, Marina, o militar pretende fazer o registro da luta dos povos do Xingu como arte marcial, como retribuição pelo conhecimento adquirido. O coronel da PM quer reverter para comunidades indígenas os royalties das academias que pretendam ensinar a modalidade.

Casado, pai de dois filhos e professor universitário, Arruda é adepto de práticas pacíficas. Afirma que a ocorrência mais grave em que se envolveu na carreira foi em uma noite de 2001. Um grupo de 30 jovens agredia um boliviano em um posto de gasolina na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, no Limão, zona norte. "Não saquei a arma, mas tive de intervir com autoridade, senão o matariam."

Lições. Os ideais pacifistas do coronel ganharam forma no Huka-Huka, uma luta sem pontuação ou juiz. Com apenas um mediador, o treino é usado como parte da base ética sob a qual Arruda quer ver fundamentada a nova geração de soldados da PM.

Pela tradição indígena, o Huka-Huka ocorre durante o Kuarup que, grosso modo, é o período da cerimônia fúnebre na qual os índios do Xingu oferecem a possibilidade de um ente querido voltar à vida ou seguir caminho na eternidade. Os índios cantam, tocam chocalhos, dançam e, ao final, lutam, pintados como onças ou peixes. Na PM, soldados usam faixas na cintura simbolizando esses animais. Quem perde tem a oportunidade de permanecer até o fim para aprender com quem vence.

Nos duelos, o vencedor só é declarado depois que o oponente assume a derrota. Outra lição é que não tem de se tripudiar sobre quem perdeu.

"Não tem aquele caráter de comemorar a vitória em face do arrasamento, do aniquilamento do adversário. Como profissionais, não temos inimigos, mas pessoas fora da ordem que precisam do apaziguamento. É um ensinamento fantástico", diz.

Os futuros PMs aprenderam as lições do Huka-Huka de forma direta, no primeiro encontro com os índios, em maio. Quando receberam a visita dos comandados do cacique Jakalo, os militares acharam que venceriam com facilidade, por serem aparentemente mais fortes e terem conhecimentos de artes marciais. Agiram como os primeiros soldados republicanos quando encontraram os jagunços sob as casas de taipas de Canudos, no fim do século 19, esperando a consagração antes de começar a batalha. Foram igualmente surpreendidos. "Fizemos 32 lutas, com um empate e 31 vitórias dos índios. E tínhamos policiais campeões de jiu-jítsu."

Legado. Arruda deixou a Escola Superior de Soldados na última semana para assumir o Comando de Policiamento Metropolitano. O coronel que o substituiu, José Maurício Weisshaupt Perez, está entusiasmado com o trabalho iniciado pelo colega.

"O nosso pessoal já foi para lá (Xingu)? Não? Então vamos mandar uma delegação. Eles plantaram uma semente aqui e vamos mostrar que está germinando", afirma. "Estamos vendo nascer uma modalidade."

Modalidade que Arruda quer ver em prática no dia a dia da PM, para além da academia. "O morador de rua, o imigrante ilegal, o cigano, o profissional do sexo em situação de vulnerabilidade, as crianças e os adolescentes em risco, os idosos... São pessoas que estão, muitas vezes, excluídas da sociedade e a PM tem uma obrigação com elas", diz o coronel.


GLOSSÁRIO

Itaribakê
Cumprimento, reverência

Ossibá
Começar, iniciar a luta

Aincho Reirei
Fim, terminar a luta

Aitchicá
Continuar, prosseguir a luta

Airá
Parar, interromper a luta

Airanungâ
Para imediatamente

Tchimanka
Derrubar de costas

Ipoingiú
Levantar, suspender do solo

Ikidene
Outro nome do Huka-Huka


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