O crítico de todos os governantes

Biografia explora as relações e as queixas de Antonio Ermírio com os políticos brasileiros

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2013 | 02h01

O governo Lula dava seus primeiros passos, em 2003, quando um ícone do empresariado brasileiro, Antonio Ermírio de Moraes, deu sua primeira estocada: "A ideia do Fome Zero é péssima. Deviam estar focados no Desemprego Zero". A meio caminho do governo, outra cobrança: "Se eu tivesse de despachar com 35 executivos, estaria perdido". Antes, atazanava Fernando Henrique Cardoso por privatizar empresas ajudando os compradores com dinheiro do BNDES. Sobre os anos de Fernando Collor, era curto e direto: "Não sou psiquiatra para fazer uma análise dessas".

Esse criador de frases, sonhador e crítico, milionário e mal vestido, é o foco de Antonio Ermírio, Memórias de um Diário Confidencial, livro que o professor José Pastore lança amanhã, pela Editora Planeta. O que vem à tona em 350 páginas é o empresário que, além de abrir fábricas, distribuía provocações e ironias - em especial, tendo políticos como alvo.

Pastore aproveitou 35 anos de amizade e as pilhas de documentos e bilhetinhos que reuniu de Ermírio - afastado da vida pública e do trabalho em consequência de hidrocefalia e mal de Alzheimer - para traçar um perfil que junta "seus valores, seus princípios, suas preferências, suas idiossincrasias e até sua teimosia, seu autoritarismo e suas explosões - em geral seguidas por pedidos de desculpa".

Do menino brincando no Pacaembu, nos anos 30, ao patrão de 60 mil empregados do Grupo Votorantim na década de 90, os capítulos mostram o marido, o pai, o empresário, o político e o dramaturgo. Um homem que montou um império nas áreas de mineração, siderurgia, celulose, cimento, energia e finanças e por fim, um tanto desgostoso, enveredou pelo teatro.

Pastore traz detalhes inéditos da disputa de Ermírio pelo governo paulista em 1986, vencida por Orestes Quércia. Um dos últimos capítulos foi um "não" ao PFL, que ofereceu apoio em troca um terço das secretarias estaduais, todas com porteira fechada.

O livro relata momentos de coragem, como a briga com um alto governante, no regime militar. Brasília pediu-lhe que desmentisse uma crítica. "Não vou desmentir nada. Primeiro prove que estou errado."

O tempo todo Ermírio é mostrado como um homem impaciente, mas que desacredita acreditando. "No Brasil tudo é prioritário, do jogo do bicho à bomba atômica. Não pode dar certo", dizia. Dos maus políticos do Congresso, fazia piada: "O último que sair vai roubar a lâmpada".

A ironia também era voltada para si próprio, como quando um assistente tentava ensiná-lo a usar um editor de textos no computador. "O tempo que vou levar para aprender dá pra construir uma fábrica de alumínio!"

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