Ir para o conteúdo
ir para o conteúdo
 • 
Você está em Notícias > Cultura
Início do conteúdo

O impetuoso que o país precisava

1822 mostra como D. Pedro teve a coragem necessária para declarar a independência brasileira

05 de setembro de 2010 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo

Ao realizar sua pesquisa, Laurentino Gomes ficou seduzido pelo imperador D. Pedro I, figura quixotesca que, se confirmou a fama de mulherengo e de autoritário, também exibiu a coragem necessária para declarar a independência, revelando ideais liberais e dons culturais. Sua força sustentou a integridade do País, como relata o jornalista na continuação da entrevista.
Foi o uso do autoritarismo que garantiu a independência?

Sim, foi um projeto que não se viabilizou pelo que hoje consideramos via democrática: a execução foi autoritária, com D. Pedro dissolvendo a Constituinte e outorgando a Constituição de 1824, mesmo ano em que interveio na Confederação do Equador, prendendo e exilando seus participantes. Curiosamente, foi um processo executado a ferro e a fogo, mas sob um discurso liberal - D. Pedro admirava Napoleão e os filósofos da época, mas, na prática, era autoritário. Ou seja, um soberano absoluto.

Se as revoluções separatistas fossem vitoriosas, o Brasil não teria o atual tamanho?

Acho que seríamos uma espécie de Mercosul português, com a língua unindo esses novos territórios. Essa ideia de dar uma noção de identidade cultural a uma colônia de enorme dimensão territorial veio com o Marquês de Pombal que, em meados do século 18, proibiu o tupi e impôs a língua portuguesa. Assim, na época da independência, o idioma já estava consolidado. Então, eu diria que a América portuguesa poderia ter se dividido em até cinco países mas hoje seríamos uma comunidade de nações de língua e cultura portuguesas na América.

Fale um pouco sobre a figura de D. Pedro.

Impossível passar incólume a D. Pedro. Foi como um meteoro que cruzou o céu de Portugal e do Brasil, uma força viva da natureza, que amou com a mesma intensidade amigos desqualificados, cavalos, mulheres, filhos. Um homem com um discurso liberal mas índole autoritária e, principalmente, a pessoa certa para comandar aquele momento histórico - imagine se D. João VI tivesse ficado no Brasil e fosse obrigado a enfrentar as dificuldades de 1822. Ele teria adiado decisões e o resultado seria outro. Já D. Pedro foi intempestivo, proclamando a independência às margens do riacho do Ipiranga, um local deserto e repleto de cupinzeiros. Ele não conseguiu esperar a chegada a São Paulo onde poderia anunciar a decisão. Era um homem temerário em suas decisões mas tinha o perfil do líder que o Brasil precisava na época, pois não havia tempo para se pensar. D. Pedro se envolveu em enormes conflitos políticos, que mudaram profundamente os rumos da história do Brasil e de Portugal. E morreu muito cedo, com 35 anos, deixando dois soberanos no trono: D. Pedro II aqui no Brasil e D. Maria II em Portugal.

Como a imagem dele mudou ao longo do tempo?

Ele passou para a História de forma muito desqualificada. Com a República, por exemplo, houve valorização de revoltosos como Tiradentes e uma desconstrução da figura de D. Pedro, relegado a um mulherengo. Ele só voltaria a se recuperar durante o regime militar, que ressaltou sua face rígida, de comandante, e, mais recentemente, com a minissérie Quintos dos Infernos, em que Marcos Pasquim interpreta um tipo mais simples e humano.

E a relação dele com a Marquesa de Santos?

Ela foi a grande paixão de D. Pedro. Trocaram cartas apaixonadas, às vezes com linguagem chula. Era uma mulher muito ambiciosa e os dois pagaram caro pelo romance. D. Pedro caiu em desgraça com a morte da mulher, D. Leopoldina, pois ela era adorada pela população, que apedrejou a casa da Marquesa naquele dia. Também surgiram acusações de tráfico de influência e de corrupção contra ela a ponto de o imperador expulsá-la da Corte para se casar com D. Maria Amélia. Depois, ela veio para São Paulo, onde se casou com o Brigadeiro Tobias de Aguiar e terminou como grande dama - o poeta Castro Alves se apresentou em seu solar. Ou seja, não era uma aventureira como se pensava.

Por falar em D. Leopoldina, ela encorajou D. Pedro a proclamar a independência, não?

Na verdade, são dois elementos que atuaram como propulsores ao jovem príncipe que, em 1822, estava com 23 anos. Um é o José Bonifácio, homem de vasto saber, grande experiência e que compartilhava com D. Pedro um espírito aventureiro. Ele exerceu grande influência sobre o futuro imperador. A outra é Leopoldina, mulher preparada para servir ao Estado, com um senso político muito aguçado. Embora nascida em uma corte absolutista, ela rapidamente se converteu à ideia de independência do Brasil. E, aliada a Bonifácio, Leopoldina exerceu uma pressão decisiva sobre os atos de D. Pedro naquele ano.


CRONOLOGIA

Fatos da era de revoluções
}
1798
Nascimento de D. Pedro
O futuro imperador do Brasil nasce em 12 de outubro, no Palácio de Queluz, em Portugal, no mesmo quarto onde morreria 35 anos mais tarde.

1808
Chegada da família real
A corte portuguesa de D. João VI desembarca no Brasil fugida das tropas de Napoleão Bonaparte.

1815
Promoção
D. João promove o Brasil à condição de Reino Unido com Portugal e Algarves.

1817
Rebelião
Tropas de D. João VI sufocam uma revolução republicana em Pernambuco.

1820
Exigência
Revoltados com a permanência da família real no Brasil, portugueses exigem sua volta na que ficou conhecida como Revolução Liberal do Porto.

1821
Regente
D. João VI e a família real voltam a Portugal depois de 13 anos vivendo no Rio de Janeiro. No mesmo ano, D. Pedro é nomeado príncipe regente do Brasil.

1822
Independência
No dia 9 de janeiro, D. Pedro decide permanecer no Brasil, contrariando ordens das cortes portuguesas. E, no dia 22, proclama a independência.

1824
Constituição
O imperador outorga a primeira constituição brasileira, uma das mais liberais do mundo.

1831
Retorno
D. Pedro abdica do trono brasileiro e volta a Portugal.

TRECHO

"A correspondência entregue pelos dois mensageiros a D. Pedro na colina do Ipiranga refletia esse momento máximo de confronto entre Brasil e Portugal. Uma carta...

...da princesa Leopoldina recomendava ao marido prudência e que ouvisse com atenção os conselhos de José Bonifácio. A mensagem do ministro dizia que informações vindas de Lisboa davam conta do embarque de 7.100 soldados que, somados aos seiscentos que já tinham chegado à Bahia, tentaram atacar o Rio de Janeiro e esmagar os partidários da Independência. Diante disso, Bonifácio afirmava que só haveria dois caminhos para D. Pedro. O primeiro seria partir imediatamente para Portugal e lá ficar prisioneiro das cortes, condição na qual já se encontrava seu pai, D. João. O segundo era ficar e proclamar a Independência do Brasil, "fazendo-se seu imperador ou rei".

"Senhor, o dado está lançado e de Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores", escrevia Bonifácio. "Venha Vossa Alteza Real o quanto antes, e decida-se, porque irresolução e medidas de água morna (...) para nada servem, e um momento perdido é uma desgraça". Uma terceira carta, do cônsul britânico no Rio de Janeiro, Henry Chamberlain, mostrava como a Inglaterra analisava a situação política em Portugal. Segundo ele, já se falava em Lisboa em afastar D. Pedro da condição de príncipe herdeiro como punição pelos seus repetidos atos de rebeldia contra as cortes constituintes. A carta de Leopoldina, a mais enfática de todas, terminava com uma frase que não deixa dúvida sobre a decisão a ser tomada: "Senhor, o pomo está maduro, colhe-o já!"

(...) Pela descrição do padre Belchior não houve sobre a colina do Ipiranga o brado "Independência ou Morte", celebrizado um século e meio mais tarde pelo ator Tarcísio Meira, no papel de D. Pedro em filme de 1972. O famoso grito aparece num outro relato, do alferes Canto e Melo, registrado bem mais tarde, quando o acontecimento já havia entrado para o panteão dos momentos épicos nacionais."


Saiba mais sobre Ubiratan Brasil no Google

Estadão PME - Links patrocinados

Anuncie aqui



Você já leu 5 textos neste mês

Continue Lendo

Cadastre-se agora ou faça seu login

É rápido e grátis

Faça o login se você já é cadastro ou assinante

Ou faça o login com o gmail

Login com Google

Sou assinante - Acesso

Para assinar, utilize o seu login e senha de assinante

Já sou cadastrado

Para acessar, utilize o seu login e senha

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão

Quero criar meu login

Acesso fácil e rápido

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha

Esqueci minha senha

Acesso fácil e rápido

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo

Cadastro realizado

Obrigado, você optou por aproveitar todo o nosso conteúdo

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail. Clique no link fornecido e crie sua senha

Importante!

Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail esta ativado

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo