O jovem da foto que correu o mundo
Ezequiel Corte Real, que tirou 30 pessoas da boate, levou nos braços universitário que morreu
01 de fevereiro de 2013 | 2h 03
Elder Ogliari - O Estado de S.Paulo
Veja também:
Espuma foi responsável por mortes, diz polícia
Saiba tudo sobre a tragédia de Santa Maria
Donos da boate Kiss assumiram o risco de matar, diz MP
Bombeiros de SP reprovam 2 em cada 3 casas
'Estado' faz mapa das baladas inseguras; colabore

Germano Roratto/Agência RBS
Ezequiel corre para socorrer vítima a tempo
O personal trainer foi um dos voluntários que tentaram resgatar as vítimas na casa noturna. Ele estava dentro da casa noturna e, ao ver que as pessoas entraram em pânico e se aglomeraram diante de uma das duas portas internas que levam ao corredor próximo à portaria, correu para a outra e chegou à porta única de saída. Mesmo assim, teve de passar por cima de pessoas que estavam caídas e, quando conseguiu sair do local, foi tomado ao mesmo tempo de um sentimento de culpa e de solidariedade e entrou em ação imediatamente.
.
Para participar da operação de salvamento, Corte Real lembrou de usar a própria camisa para cobrir o rosto e de prender a respiração enquanto se aproximava das vítimas. O trabalho acabou quando a Brigada Militar informou que não havia mais pessoas vivas nos escombros. O personal trainer e outras pessoas que tiveram atitudes semelhantes foram então procurar ajuda para eles mesmos em hospitais. "Era hora de cuidar do cansaço e do abatimento psicológico", lembra Corte Real. Depois de passar uma noite em observação, ele foi liberado, mas até hoje está tomando medicamentos para prevenir possíveis consequências dos gases que respirou.
O fotógrafo que captou a imagem, Germano Roratto, 30 anos, prestador de serviços para o jornal Diário de Santa Maria, não conhece os personagens nem lembra direito de todas as circunstâncias, mas sabe que a fotografia foi uma das primeiras das quase mil que bateu naquela noite. "Vi o rapaz correndo, carregando alguém possivelmente maior do que ele", recorda. "Ele passou por mim e, com o caminho aberto por um policial, colocou o homem num táxi", descreve. "Depois voltou e seguiu ajudando."
Sobre a fotografia, diz que "não é fantástica, mas, no geral, mostra a situação", que considera "muito chocante".
Entenda. O incêndio com mais mortes nos últimos 50 anos no Brasil causou comoção nacional e grande repercussão internacional. Em poucos minutos, mais de 230 pessoas - na maioria jovens - morreram na boate Kiss de Santa Maria - cidade universitária de 261 mil habitantes na região central do Rio Grande do Sul.
A tragédia começou às 2h30 de domingo, 27, quando um músico acendeu um sinalizador para dar início ao show pirotécnico da banda Gurizada Fandangueira. No momento, cerca de 2 mil pessoas acompanhavam a festa organizada por estudantes do primeiro ano das faculdades de Tecnologia de Alimentos, Agronomia, Medicina Veterinária, Zootecnia, Tecnologia em Agronegócio e Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A maioria das vítimas, porém, não foi atingida pelas chamas - 90% morreram asfixiadas.
Sem porta de emergência nem sinalização, muitas pessoas em pânico e no escuro não conseguiram achar a única saída existente na boate. Com a fumaça, várias morreram perto do banheiro. Na rua estreita, o escoamento do público foi difícil. Bombeiros e voluntários quebraram as paredes externas da boate para aumentar a passagem. Mas, ao tentarem entrar, tiveram de abrir caminho no meio dos corpos para chegar às pessoas que ainda estavam agonizando. Muitos celulares tocavam ao mesmo tempo- eram pais e amigos em busca de informações.
Como o Instituto Médico-Legal não comportava, os corpos foram levados a um ginásio da cidade, onde parentes desesperados passaram o dia fazendo reconhecimento. Lá também foi realizado o velório coletivo.
Em entrevista à Radio Estadão na manhã da última quinta-feira, 31, o governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro disse que a Prefeitura não deveria ter concedido alvará para a casa noturna.
"Mesmo que (a boate) estivesse dentro de normas legais de engenharia, qualquer leigo olharia aquele local e não daria alvará. Não tinha portas laterais, era uma espécie de alçapão, uma estrutura predatória da vida humana. E era visível que a casa estava preparada para receber mais gente do que o autorizado, cerca de 600 pessoas", afirmou Genro.
O governador disse, ainda, que a Prefeitura deveria ter lacrado a boate em agosto, quando venceu o alvará dado pelo Corpo de Bombeiros. "Mesmo que o documento esteja em análise, a casa deveria estar fechada até o documento sair."
Siga o @estadao no Twitter
Grupo Estado
- Copyright © 1995-2013
- Todos os direitos reservados







