
O Nero do Maraca
Há muitos anos, um torcedor revoltado com as atuações do time resolveu queimar uma bandeira do Fluminense. Teve de encarar a fúria de Nelson Rodrigues: "A bandeira do Fluminense, tal qual uma Joana D''Arc, poderá dizer às demais: "Eu fui queimada ? e tu não fostes!"" ? escreveu o mestre, numa coluna que enaltecia o suplício do pavilhão para condenar o incendiário, "um autêntico Nero dos estádios". Nelson era maluco pela bandeira do Flu. Não por acaso, ao ver a cidade do Rio cheia delas após a conquista de um título, registrou: "Se um turista chegasse de Marte, ao ver a cidade coberta de bandeiras tricolores, anotaria em seu caderninho: "Começou a nova Revolução Francesa!"". Bons os tempos em que os cronistas podiam exagerar...
Lembrei de tudo isso por conta da história de José Calixto Uchoa Ribeiro, torcedor que teve um surto de Nero ao ver seu time receber uma goleada de 6 x 0 do Vasco ? e simplesmente botou fogo (sem trocadilho intencional) na camisa do Botafogo. Não há como negar a dureza do golpe. Além de ter consentido ao Flamengo o único "título" que eu jamais imaginei que o clube da Gávea fosse conquistar ? a devolução dos famosos 6 x 0 dos anos 70 ?, o Alvinegro passou a colecionar goleadas históricas diante de cada um de seus rivais cariocas. Agora são dois 6 x 0, um diante do Vasco e outro do Flamengo, e um 7 x 1 sapecado pelo Fluminense. Apesar da dor, sobraram críticas para o torcedor piromaníaco, que "ultrajou" o manto sagrado do clube. Puro exagero.
Em primeiro lugar, futebol é entretenimento. Por mais que levemos a sério as partidas dos nossos times, temos que reconhecer que o resultado delas não alterará o preço do dólar ou os indicadores sociais do país. Dessa forma, queimar a bandeira ou a camisa de um clube, ainda que seja um gesto que eu jamais perpetraria, não é um delito. Queimar a bandeira de um país é considerado crime em muitas nações, na nossa inclusive. Mas, em outras, trata-se de direito constitucional. É inegável reconhecer, concordemos ou não com o ato, que muitos dos que queimaram bandeiras norte-americanas na luta pelos direitos civis, no final dos anos 60, eram patriotas. José Calixto, para mim, é uma espécie de patriota botafoguense.
Muitas das pessoas que amam seus times são incapazes de queimar camisas para demonstrar sua frustração. Eu sou uma delas. Mas, ora, não dá para negar que um torcedor desprovido de amor ou com postura neutra e distanciada dos resultados da equipe, é incapaz de atear fogo a uma camisa. Quem chega a ponto de voltar para casa com o peito ao vento e o amor-próprio em cinzas após uma derrota dura é, sem dúvida, alguém envolvido de verdade com o time do coração. A diretoria do Botafogo, espertamente, reconheceu isso. E, após reformular o comando da equipe, com a contratação de Joel Santana, convidou o estressado José Calixto para receber, das mãos do próprio treinador, uma camisa novinha em folha do amado Glorioso.
José Calixto, que já havia pedido desculpas pelo ato tresloucado, foi habilidoso durante a pequena cerimônia. Garantiu que continuará como torcedor fervoroso do clube, colheu autógrafos do novo técnico e dos mesmos jogadores que dias antes ele estava xingando ? e prometeu: se o Botafogo for campeão, tatuará na pele o escudo do Alvinegro, no que se fará acompanhar dos filhos. Aí será mais difícil se livrar do pavilhão do clube em caso de nova goleada. Querem saber? Simpatizei com o tal do José Calixto. Combinando renúncias grandiosas com fúria patética, ele resumiu a gostosa irracionalidade de um autêntico torcedor.
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