O país improvável
O livro 1822 mostra como D. Pedro contou com o acaso para proclamar independência
O momento conspirava contra - naquele ano de 1822, em cada três brasileiros, dois eram escravos, índios ou mestiços. O analfabetismo dominava (só uma pessoa em cada dez sabia ler), inclusive entre os ricos. As diversas províncias do País viviam isoladas, o que aumentava o risco de uma guerra civil ou mesmo étnica, entre brancos e escravos. Para completar, no ano anterior, quando retornou para Portugal, o rei D. João VI carregou todo o tesouro dos cofres nacionais, deixando o Brasil em situação de falência. "Mesmo assim, D. Pedro proclamou a independência e, mais surpreendente, conseguiu manter a integridade do território, numa combinação de sorte, acaso e sabedoria", comenta o jornalista e historiador Laurentino Gomes.
É o que ele narra em 1822, livro que já desponta como sério candidato a best-seller, pois chega neste fim de semana com uma edição inicial de cem mil exemplares.
Tamanho interesse é justificável - sua obra anterior, 1808, sobre a vinda da família real portuguesa ao País no início do século 19, vendeu cerca de 700 mil exemplares. E o novo livro começa onde aquele terminou, relatando as agruras que marcaram a proclamação da independência brasileira que, ao contrário do apregoado pelo famoso quadro de Pedro Américo, aconteceu de forma mais simples - atormentado por uma diarreia, D. Pedro voltava de Santos montado em uma mula naquele 7 de setembro quando, irritado com notícias vindas de Portugal, declarou a separação às margens do Ipiranga, local deserto, rodeado por cupinzeiros.
Laurentino já pesquisa para o próximo livro, 1889, que vai chegar até a Proclamação da República. "Deve ficar pronto em três anos", disse ele ao Estado na semana passada.
O livro mostra como a combinação do acaso com a improvisação permitiu ao Brasil manter seu intenso território e se firmar como nação independente. Seria essa um dos aspectos mais interessantes da narrativa?
A independência brasileira é repleta de mitos - existem diferentes versões para o Grito do Ipiranga (como o quadro do Pedro Américo) -, mas uma das mitologias mais recorrentes é que foi um processo pacífico, negociado dentro da família de Bragança, entre pai e filho, sem qualquer risco ou sacrifício. O que não é verdade: o Brasil correu o seriíssimo risco de não dar certo, de fracassar. Poderia ter mergulhado em uma guerra civil ou étnica, entre escravos e brancos. Também não havia forças armadas próprias. As elites estavam divididas, eram rivais. Se nos Estados Unidos o processo foi organizado, no Brasil predominou a sorte, o acaso.
O Brasil poderia se tornar uma República, seguindo o que acontecia com os vizinhos?
Sim, a América espanhola se fragmentou por conta do vácuo de poder na sede do Império, a Espanha. Isso provocou uma guerra imediata entre os caudilhos regionais, divergentes sobre os caminhos desse Império à deriva. No Brasil, aconteceu o contrário: foi um processo controlado pelo herdeiro da coroa portuguesa, aliado a José Bonifácio que tinha plena consciência de que uma via republicana fragmentaria o Brasil - ele se posicionou como um monárquico constitucional, defendendo o poder para D. Pedro.
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