
O PIB que se queria
E temos aí o PIB do segundo trimestre, 1,2%. Cresceu como devia, nem mais, nem menos, sem inflação, distorções fiscais insustentáveis, mais endividamento das famílias e dos governos. Foi o maior crescimento em 14 anos, no semestre, desde o início da série histórica. Nos últimos doze meses, de junho a junho, 5,1%. Para este ano, projeta-se uma alta de 7%. Para os técnicos do Banco Central, 7,3%. O mercado é otimista. Acredita em mais. A demanda interna, que havia recuado, voltou a crescer nas últimas semanas. Desemprego caindo, contratações aumentando, reajustes salariais acima da inflação, renda reforçada pelo primeira parcela do 13.º sálario e crédito no sistema, 46% do PIB, em junho.
Não é um círculo virtuoso, onde emprego, renda, investimento e produção se encadeiam, mas parece sob controle pelo menos até agora, sem mais inflação.Revendo as declarações sobre receio de superaquecimento, de bolhas, pode-se ironicamente dizer que o governo "venceu" a luta. O ministro da Fazenda afirma, feliz, que teremos 7% até o fim do ano, sem inflação. O presidente do Banco Central acrescenta que o resultado do trimestre é moderado e "está absolutamente dentro das previsões".
Não tivemos o exagero do primeiro trimestre, nem o crescimento nulo no segundo. Os técnicos do BC preveem em cada um dos próximos trimestres um crescimento "moderado". Não há razão para mudar.
Nós e o mundo. O PIB do trimestre tem um sentido especial porque o crescimento ocorre num momento em que a economia mundial volta a desacelerar. O órgão oficial de estatísticas da União Europeia informou esta semana que o PIB da região cresceu apenas 1% no segundo trimestre.
Nos Estados Unidos, Obama reafimou que anunciará na próxima quarta-feira um conjunto de medidas de ampla repercussão para incentivar a economia. Em agosto, foram criados apenas 67 mil empregos. Já falou em redução de impostos, maior ajuda aos que compraram imóvel, estímulos especiais para as empresas manterem empregos e voltarem a contratar, início de obras públicas, crédito mais fácil.
Todos aplaudem, mas acreditam que se trata mais de um gesto político quase desesperado a dois meses da eleição, onde o seu partido perde terreno com o baixo desempenho econômico. Não há chance de êxito no Congresso dividido.
Ou seja, o Brasil não pode contar nem com o crescimento americano, nem europeu este ano. Tem, sim, a competição deles pelo nosso mercado. E, aqui, os dados do IBGE revelam riscos e distorções. Entre o segundo trimestre do ano passado e o deste ano, as importações aumentaram 38,8% e as exportações apenas 7,6%. Não foi a compra apenas de bens de consumo que ajudam a conter a inflação, mas produtos manufaturados ou semimanufaturados para serem utilizados na produção nacional.
A gerente de Contas do IBGE Rebeca Palis explica que são automóveis, caminhões, equipamentos e material elétrico que podem ser considerados como investimentos. E esses produtos se destinam principalmente ao mercado interno. Não desoneram as perdas na balança comercial, que caminha para um déficit. A manter-se esse cenário de importar cinco vez mais do que se exporta, é facil concluir que estamos diante de uma situação distorcida e pouco sustentável e difícil de mudar em curto e médio prazo.
Por quê. Simplesmente porque eles estão em crise, querem exportar mais para um dos poucos países que ainda está crescendo com base num mercado interno em expansão. E os dados do IBGE mostram que também estamos querendo importar mais porque seus preços são mais competitivos. A consequência é menor pressão inflacionária e maior déficit em conta corrente. No fundo, ninguém pode criticar o Banco Central por estar aumentando as reservas cambiais. Podem fazer quantas contas de perdas quiserem, vamos precisar muito delas ainda.
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