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O último voo dos guardiões do poder

Solenidade marca adeus da frota de caças que protege capital federal e que será desativada dia 31

20 de dezembro de 2013 | 2h 04
Roberto Godoy - O Estado de S.Paulo

O momento é o da despedida - os guerreiros dizem adeus às máquinas de combate na base de Anápolis. São os pilotos dos 12 caças Mirage 2000C/B, do 1.º Esquadrão de Defesa Aérea. A eles, cabe garantir a segurança de Brasília. E, de quebra, também de determinados pontos estratégicos em regiões vizinhas, alguns deles no Estado de São Paulo.

A frota de caças, nesse momento limitada a seis supersônicos - os outros servem de banco de peças e ficam na reserva -, está sendo desativada. A princípio, o último voo está previsto para a noite do dia 31, isso se uma aeronave não identificada invadir o limite do espaço aéreo do centro do poder.

Não se sabe quem fará a saída derradeira. Depende da escala de serviço. O perfil desse homem é, todavia, o padrão da elite dos combatentes, reunida no grupo: o aviador do voo final tem entre 27 e 37 anos e forma física para suportar as pressões superiores a 9 vezes a da força da gravidade. Habituado com o estresse, toma vitamina A/B e potássio, para melhorar a visão e reduzir a perda de sal e glicose.

Hoje será celebrada formalmente a dispensa dos jatos. Uma solenidade curta, que também vai marcar a troca de comando: o tenente-coronel Eric Bresegliere dará lugar ao major Cláucio Marques. Até ontem, não estava definido se os caças, que deixarão de voar em dez dias, farão uma passagem simbólica sobre a tropa.

A melancólica aposentadoria do interceptador Mirage 2000, preso ao chão sem sucessor nos mesmos níveis de velocidade e poder de fogo, é a pior consequência da longa espera - pouco menos de 20 anos - pela escolha de um novo caça de múltiplo emprego e alta tecnologia para os esquadrões de caça da FAB. O procedimento terminou há dois dias. A vencedora foi a sueca Saab, com o caça Gripen NG, ainda em desenvolvimento. O contrato vale US$ 4,5 bilhões.

Não muda a dificuldade imediata de operação. O Ministério da Defesa negocia o leasing, uma espécie de arrendamento de cerca de 12 jatos Gripen usados, modelo JAS-39. É uma geração anterior à do NG, para suprir a demanda enquanto a encomenda não for entregue, a partir de 2018 ou, talvez, um ano antes.

Até lá, o quadro do 1.º Grupo, em Anápolis, será reduzido a apenas seis pilotos - hoje são cerca de 35. A missão de defesa passa para os caças F-5M, configurações modernizadas do americano F-5E Tiger II, construído há 35 anos. É o caça mais importante da FAB, que opera 46 deles e espera a incorporação de outros 11, comprados usados na Jordânia para serem revitalizados pela Embraer Defesa e Segurança na fábrica de Gavião Peixoto, a 300 quilômetros de São Paulo. Um contrato total de US$ 470 milhões.

Os supersônicos de ataque serão deslocados alternadamente das bases da FAB em Santa Cruz, no Rio, de Manaus, no Amazonas, e Canoas, no Rio Grande do Sul.

Sua única tarefa é a guarda de Brasília. Dia e noite, dois deles vão permanecer prontos, armados com o canhão de 20 milímetros e mísseis ar-ar, preparados para decolar cinco minutos depois do uivo da sirene de emergência.

No limite. A rotina do esquadrão é dura. Quase sempre a interceptação é um exercício, fora do alcance visual do alvo, e feita, até agora, por um poderoso Mirage-2000C, armado com canhões de 30 milímetros, mais dois mísseis Super-530 de 275 quilos, 3,80 metros - levando 45 quilos só de carga explosiva.

Nessa situação, o piloto, cujo treinamento é avaliado em US$ 3 milhões, dispara pela pista de 3,5 mil metros a bordo de um dos caças cinzentos de 6 milhões - comprados na França em 2005, usados e revisados, a um custo total de 80 milhões. O acionamento faz parte da rotina do GDA desde 1973, quando a unidade ainda se chamava 1.ª Alada e operava o Mirage IIIE/Br - desativado 33 anos mais tarde, em 2005, também na noite de 31 de dezembro.

O caçador a bordo do supersônico só recebe os dados da missão quando já está no ar, motores trovejando sobre o planalto goiano. Localizado e identificado o "ilícito" - quase sempre um jato executivo ou avião privado -, o oficial retorna à base em 20 minutos. Demora outro tanto para voltar ao hangar, já preparado para sair outra vez.

O clima na reservada instalação militar do Planalto é o de tempo de guerra. A missão mais ampla é defender 1,5 milhão de quilômetros quadrados até o complexo industrial de São Paulo.

Os abrigos do alerta ficam próximos da pista, para permitir decolagem em 5 minutos, e suficientemente distantes para escapar das bombas de um eventual ataque contra as aeronaves em terra. Não há portas. O avião deve rolar pela rampa sem dificuldades. A missão é sempre de urgência. Há lançamentos reais, de identificação de aeronave intrusa, clandestina, sem plano de voo e em atitude hostil. Depois de subir depressa para entrar no modo de busca determinado pelo Centro Integrado de Controle e Defesa do Espaço Aéreo (Cindacta-1), o caçador cuidará do planejamento da abordagem. A identidade dos aviadores e as histórias das missões são dados reservados.

Um oficial superior diz que não convém expor o pessoal que sabe de alguns dos procedimentos militares mais secretos do País. Menos ainda contar suas façanhas. Há alguns anos, sem que o episódio seja confirmado ou desmentido, um jato de grande porte apareceu nos radares. O passageiro seria o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para uma visita sigilosa ao amigo Lula. Legitimado, teria ganho a escolta de dois caças.

Os 12 Mirage 2000C/B, usados, cedidos pela França por 60 milhões, mais 15 milhões em suprimentos e 5 milhões pelo treinamento técnico - "foram a melhor solução até a execução do programa FX-2 novo caça de 4.ª geração", diz o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito.

A base de Anápolis, com 1.600 homens e mulheres, uma das maiores da rede mantida pela Aeronáutica, abriga também o 2.º/6.º Grupo de Aviação, o Esquadrão Guardião. Os grandes jatos de inteligência são montados sobre a fuselagem do Emb-145, da Embraer. O R-99A é destinado ao trabalho de alerta avançado e coordenação do espaço aéreo. Leva sobre a fuselagem a antena sueca Erieye. Com ela, pode controlar o movimento de aeronaves abaixo de 3 mil metros - portanto, fora dos radares, e organizar a atividade de aviões de combate.

O modelo R-99B, de sensoriamento remoto, é o principal recurso aerotransportado de inteligência da aviação militar brasileira. Segundo um oficial da unidade, os sistemas de imagens são dez vezes melhores que os dos satélites comerciais, permitem rastrear objetivos em terra e no ar e grampear comunicações. Os recursos de imagens estão servindo ao levantamento das áreas das hidrelétricas do Rio Madeira. Os cinco aviões estão passando por um programa de atualização dos recursos eletrônicos.






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