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Obama decepciona grandes empresas

Incerteza sobre novas regras nos negócios, como cobrança de impostos de bancos, provoca adiamento de contratações e investimentos nos EUA

06 de fevereiro de 2010 | 0h 00
Patrícia Campos Mello - O Estadao de S.Paulo

Boa parte das grandes empresas e bancos dos Estados Unidos está muito decepcionada com o presidente Barack Obama. Uma onda de sentimento contra os grandes negócios tomou conta do país e está sendo alimentada pelo governo. Obama propôs recentemente uma série de medidas consideradas hostis aos grandes negócios, entre elas taxas sobre bancos e fim de isenções fiscais que devem elevar os impostos para grandes empresas em US$ 468 bilhões ao longo da década.

Segundo analistas, a incerteza causada pelas novas regras está fazendo as empresas adiarem contratações e investimentos. "O ambiente hostil aos negócios já resultou na queda de investimentos e adiamento de contratações", disse Mark Calabria, pesquisador do Cato Institute. "E a incerteza é ainda pior quando não se sabe quais serão as regras do jogo; todo mundo fica esperando para ver o que vai acontecer."

A pesquisa Bloomberg Global do mês passado revela que 77% dos investidores americanos acham que Obama tem um viés antinegócios. Apenas 27% dos investidores aprovam o presidente - eram 32% em outubro.

No orçamento que apresentou ao Congresso na segunda-feira passada, Obama propõe o fim de isenção fiscal para certas operações de multinacionais, no valor de US$ 122 bilhões, e mudanças contábeis que elevarão o custo das empresas. Para os bancos, estão na mesa o imposto de responsabilidade sobre a crise financeira, que pode arrecadar mais de US$ 90 bilhões dos grandes bancos ao longo de dez anos, e as propostas da regulação de Paul Volcker proibindo bancos que detêm depósitos de correntistas de investir negociar ou aconselhar fundos hedge e fundos de participações em empresas (private equity), além de vetar as instituições de fazer operações com seu próprio dinheiro.

Obama também propôs medidas para limitar o tamanho dos bancos para que o governo não se veja novamente obrigado a resgatar instituições com dinheiro do contribuinte para evitar um colapso no sistema financeiro. Em Wall Street, vários dos bancos que fizeram doações para a campanha de Obama estão agora contribuindo com republicanos, na tentativa de bloquear a onda de regulamentação proposta por Obama.

"Se você é uma empresa e está tentando descobrir como vai ser o futuro, você está olhando para impostos de assistência médica, impostos sobre ganhos de capital subindo, taxas sobre dividendos em alta", disse o senador Mitch McConnell, líder dos republicanos no Senado. "Então, esse é um bom ambiente para expandir o emprego? Eu acho que não."

A opinião pública, no entanto, não ajuda os bancos. Uma propaganda veiculada atualmente na TV americana mostra um grupo de porcos com os nomes Citibank, J.P. Morgan e Bank of America tatuados no lombo. Financiada por um grupo de esquerda, o Americans for Change, a propaganda pressiona pela aprovação das reformas financeiras propostas por Obama.

"Quando os grandes bancos ficaram doidos como porcos selvagens em Wall Street, eles deixaram um estrago enorme para o cidadão comum. Sua ganância e temeridade deixaram a economia na lama e sete milhões de americanos desempregados", diz o locutor, diante de imagens de porcos com nomes de bancos. "Mas os grandes bancos foram os primeiros da fila para receber seu pacote de resgate dos contribuinte e voltaram a seus vícios emporcalhados. Lembrem-se: pode-se passar batom em um porco, mas ele continua sendo um porco. Peça ao Congresso que aprove o plano do presidente Obama para fazer os bancos responderem por seus atos."

Os bancos sabem que vai ser difícil evitar um enorme aumento no alcance das regulamentações. "Reconhecemos que cometemos erros e isso afetou muito a imagem e credibilidade dos bancos, a reforma da regulamentação é necessária", disse Andrés Portilla, vice-diretor de Regulamentação do Institute of International Finance (IIF), espécie de Febraban mundial. "Mas, claramente, há um risco de exagero - sempre que a regulamentação vem em decorrência de debates inflamados, há risco de exagero."

Segundo o IIF, um dos perigos é a chamada arbitragem regulatória. Como cada governo está implementando suas próprias regras, sem uma coordenação internacional, os bancos vão simplesmente migrar para onde as regras forem mais frouxas, fazendo arbitragem. Por isso, argumenta o IIF, o G-20 e o Financial Stability Board deveriam ser centrais no desenho dessas regras, mesmo preservando as jurisdições e particularidades de cada país.

Segundo Richard Sylla, professor de História Econômica da Universidade de Nova York, a última vez que isso ocorreu foi em 1962, quando o presidente John F. Kennedy censurou publicamente as siderúrgicas por elevarem os preços.