Ocupação de favelas acirra guerra de facções
Unidades de Polícia Pacificadora diminuem áreas sob comando do crime, mas fazem crescer disputa por bocas de fumo em morros desocupados
A nova estratégia da Segurança Pública de ocupação permanente de favelas com a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) diminuiu as áreas sob comando do crime organizado e ao mesmo tempo acirrou os confrontos entre facções criminosas pelas bocas de fumo ainda disponíveis nos morros cariocas que não estão sob a ação das UPPs. As obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) também levaram mais policiamento às comunidades, dificultando a ação dos traficantes e fazendo com que procurem outros locais.
O tiroteio anteontem no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, zona norte, foi um capítulo mais grave das batalhas diárias travadas em toda as regiões.
O primeiro sinal de que as UPPs aumentariam a disputa pelos pontos de venda de drogas veio da zona sul, onde estão as favelas mais rentáveis para o tráfico. Em março, após a ocupação da Favela Santa Marta, em Botafogo, o gerente do tráfico local, Francisco Rafael Dias da Silva, o Mexicano, se aliou aos traficantes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) na Rocinha para tentar tomar a Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, dos antigos aliados do Comando Vermelho (CV). A incursão fracassou e pelo menos dez comparsas de Mexicano foram mortos.
Na zona norte, os tiroteios entre criminosos do Morro dos Macacos, dominado pela ADA, e do Morro São João, controlado pelo CV, ocorrem desde os anos 90, mas se intensificaram nos últimos meses. Em setembro de 2008, a Delegacia de Combate às Drogas frustrou um plano de invasão idêntico ao colocado em prática na madrugada de sábado.
Liderados por Alexander de Jesus Carvalho, o Choque, cem homens do Complexo do Alemão, Mangueira, Manguinhos e Jacarezinho se preparavam no Morro São João para invadir o Morro dos Macacos quando foram flagrados e expulsos a tiros pela polícia.
Com Choque preso em outubro de 2008, o comando da invasão de anteontem coube a Fabiano Atanázio, o FB, que comanda o tráfico na Vila Cruzeiro.
De acordo com a Polícia Civil, o aval para as empreitadas sempre parte do traficante Márcio Nepomuceno dos Santos, o Marcinho VP, preso na Penitenciária Federal de Catanduvas, mas atualmente fora do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Outra ordem de Marcinho VP, segundo o Serviço de Inteligência, foi a invasão de traficantes do Complexo do Alemão ao Morro do Juramento, no mês passado, que resultou em 12 mortes.
A disputa mais sangrenta ocorre hoje no Complexo da Maré. O conjunto de favelas na zona norte do Rio é dividido por três facções criminosas. Lá, os confrontos duram mais de quatro meses e 40 pessoas já morreram, de acordo com ONGs.
Enquanto isso, nas quatro Unidades de Polícia Pacificadora, que englobam cinco comunidades (Santa Marta, Batam, Cidade de Deus, Chapéu Mangueira e Babilônia), o clima é de convivência pacífica entre policiais e moradores, sem tráfico ostensivamente armado, permitindo que os moradores do asfalto voltem a conviver com a favela.
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