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Olhar crítico e original da sociedade

Textos Autobiográficos mostra como a vida influenciava a obra de Bukowski

26 de setembro de 2009 | 0h 00
Ubiratan Brasil - O Estadao de S.Paulo

A vida, modo de usar - se já não fosse o título de um fabuloso livro do francês Georges Perec, esse se encaixaria bem em Textos Biográficos, seleção de reminiscências de Charles Bukowski (1920-1994) que a editora L&PM acaba de lançar (tradução de Pedro Gonzaga, 479 páginas, R$ 66). Trata-se de uma série de trechos coletados de uma vasta obra deixada pelo americano, entre romances, contos, poemas e textos pessoais. Como poucos, Bukowski baseou sua literatura intimamente no próprio cotidiano, descrevendo uma vida ordinária. Mas, como acreditava que o assunto não interessava a quase ninguém, ele assumiu a função de outsider que lhe permitiu observar a sociedade com um olhar crítico e original.

"Não há máscaras em sua escrita", observou a cantora alemã Ute Lemper ao Estado no início do ano, quando se apresentou em São Paulo. Fascinada pelas palavras sujas na forma mas límpidas na intenção, Ute vem musicando poemas de Bukowski, material que vai compor o disco que pretende lançar no final de 2010. "Em alguns momentos, ele me faz lembrar Bertolt Brecht, que também jamais pretendeu ser considerado um poeta. Ambos buscavam apenas retratar as dificuldades de se viver em sociedade."

A admiração talvez se justifique por algumas coincidências na trajetória de Ute e Bukowski - ambos nasceram na Alemanha e acabaram trocando o país pelos Estados Unidos. Com isso, sentiram na pele a necessidade de criar vínculos com outra sociedade. As semelhanças, no entanto, param por aí. Enquanto Ute se transformou em uma cantora de sucesso com um repertório baseado em Brecht e Kurt Weil, Bukowski percorreu os subterrâneos, trabalhando nos correios até conseguir a independência como escritor somente depois dos 49 anos.

Nascido Heinrich Karl Bukowski na cidade alemã de Andernach, em 1920, ele se mudou para os Estados Unidos com a família três anos depois, fugindo da crise econômica que assolava a Alemanha, derrotada na 1ª Guerra Mundial. São esses momentos que inspiram os primeiros textos selecionados do livro, que mostram os sofrimentos do pequeno Bukowski, atormentado na escola por sua tendência à solidão (fruto da reclusão imposta pela família) e pelo sotaque alemão. "Foi no jardim de infância que conheci as primeiras crianças da minha idade. Elas pareciam muito estranhas, sorriam e conversavam e pareciam felizes."

Ainda jovem, Bukowski sentiu uma verdadeira epifania ao experimentar uma bebida alcoólica pela primeira vez. "Isso vai me ajudar ao longo da vida", escreveu ele, anos depois, confirmando não só a dependência etílica mas também a importância que o álcool teria em sua produção artística. Ela liberava caminhos, alimentava ambições e ainda o distinguia dos demais. "Realizei várias incursões educativas pelos cortiços da cidade a fim de me preparar para o meu futuro", escreveu ele em Misto Quente, lançado em 1982. "Não gostei nada do que vi por lá. Aqueles homens e aquelas mulheres não tinham qualquer tipo especial de ousadia e brilho."

Não era essa a vida que o beberrão, o empregado da agência de correios (onde colava selos) queria. Assim, mais que criar um mundo ficcional para seus personagens, Bukowski buscava uma rotina superlativa para si mesmo. Uma trajetória, enfim, que inspirasse seu trabalho como autor. E, ao escrever realística e sucintamente, sempre com humor, sobre a classe trabalhadora da América, Bukowski valorizou um objeto subestimado na cultura americana.

Não tinha pretensões políticas, mesmo tendo flertado com o movimento nazista. Não era de esquerda ou de direita - Bukowski era mais uma anarquista, na acepção da palavra que se encaixaria no comediante Groucho Marx, aliás, mulherengo como ele. Características que não permitem encaixá-lo na Geração Beat, formada em sua maioria por efeminados rapazes de classe média que viviam em grupo, ao contrário de sua opção pelo trabalho-solo.

É o que revela o quebra-cabeça montado em Textos Biográficos: um autor marcado por uma ânsia pela dignidade e pela busca da verdade e da liberdade.