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'Os corvos davam fim aos mortos'

12 de fevereiro de 2012 | 3h 11
O Estado de S.Paulo

"Batalhões de inocentes ficaram jovens sem pai, sem mãe, sem irmão mais velho. Se criaram no mundo sem ter ninguém. Depois da mortandade de gente, os bichos mexiam com aquela gente que ficava em cima da terra. Ficava aquele cheiro. Ficou arretado. Foram uns tempos bem bravos. Os mortos eram deixados no limpo. Os corvos davam fim. Os batalhões da guerra não escolhiam, fosse branco, brasileiro, alemão, caboclo, o que encontravam, eles derrubavam. Não deixavam em pé uma pessoa. Não tinham dó. Quem ficava na mira dos piquetões se acabava. Não gosto nem de falar. Os vaqueanos foram os primeiros a acabar.

Eram dos brasileiros e daí o jagunços não gostavam de brasileiros. Sofreram. Teve uma tia minha, mulher de um tio meu, que estava para ganhar neném naqueles dias, gêmeos, eles mataram a mulher e jogaram as crianças na cerca. Adeodato (líder rebelde)? Não conheci, mas ouvi falar. Até ele matou duas irmãs da minha mãe, Maria e Julia Caetano. Ele era padrinho delas. Matou por bandido que era. Já tinha matado as mães e os irmãos. Eu nasci em Rio das Pedras, que agora é município de Fraiburgo. Fui nascida na colônia do meu pai. De lá, me arretirei porque meu pai vendeu a colônia dele. Saí de lá com 5 anos. E fui para Rio Bonito, para quem vai para Curitiba. A gente morava nas casas onde moravam os trabalhadores da estrada de ferro.

Sempre tive fé. Naquele tempo da guerra, quando uma senhora ganhava um pequeno, São João Maria era o padrinho. Não se colocava outro acima dele. Sou afilhada dele. Na guerra, minha mãe viu jagunços chegarem, arrumou as mãos e pediu: 'São João Maria salve ao menos um da minha família para contar para os outros que estão lá no sítio'. Então, São João Maria salvou minha mãe e dois filhos dela. Depois da guerra, ela e meus irmãos morreram. Eu fui a única que restou da Irmandade. Sobrevivi. Nem tio, nem esposo, nem tia, nem prima sobreviveram.

Cerne de cambará. Mas olhe, eu, ainda no ano passado, capinei e plantei e colhi feijão em Calmon. O doutor que me consultou no hospital me olhou bem e disse: 'Vozinha, a senhora erga sua cabeça e me olhe'. 'Por que, doutor?' Ele me disse: 'A senhora não é mais gente para estar aqui no nosso mundo. É para estar lá no mundo de Irmã Paulina. Sua idade já venceu. A senhora conhece o cerne do cambará?' 'O cerne do cambará nunca acaba.' Quem busca a fé quase sempre encontra. Quem guarda o segredo busca a fé. Foi o que São João Maria enxergou. Os homens fazem guerra pelo estado da fé. Se o senhor tem uma dúvida e quer se vingar, o senhor faz guerra. Não tenho estudo de aula. Meu estudo é só o da minha fé. Sabe que eu sou vencida. O sangue caboclo dura 60 descendências de família, para ver o quanto é forte. E tenho o sangue caboclo que se misturou com o alemão.

Eu assisti duas guerras. A do Aleodato e dos jagunços. Sou a única pessoa que existe daquela época, de raiz. Dessa época, a única descendência que sobreviveu foi a Sebastiana. A minha família é toda de raça cabocla. Eu sou sangue de caboclo e sangue de alemão. Meu bisavô, que era casado com a avó da minha mãe, era alemão. Os batalhões iam para os sítios pegarem os bugres a cachorro no mato, pegaram minha bisavó e meu bisavô. Minha bisavó era daquela bem cabocla, com beiço virado, que assoviava, nem falar falava. Sempre fui uma pessoa cuidadosa. Nunca deixei chegar uma ponta de tesoura no meu cabelo. Nunca usei joia. Naquele tempo antigo, pintura também se proibiu. Hoje, estou mais leve que uma palha. Estou muito contente, é uma paz, um sossego. É a miudeza dessa fraqueza."