Osesp faz concerto de pura magia
Orquestra abre temporada esbanjando competência, prazer e alegria em tocar
Alegria é o adjetivo que melhor qualifica o atual estágio da Osesp. Os músicos tocam soltos; Tortelier, inteiramente à vontade, esbanja competência. E prazer de tocar, sabemos todos, é a regra número 2 para um bom concerto (a primeira, claro, é a competência, o domínio técnico e artístico sobre o repertório). A terceira é um repertório ao mesmo tempo equilibrado e diversificado. Tudo isso aconteceu no concerto de abertura da temporada 2010 da Osesp, que você ainda pode assistir hoje e amanhã na Sala São Paulo. Ou então ouvi-lo, na íntegra, sábado, dia 13, às 16h30, na Rádio Cultura FM (103.3 ou pela internet).
A descontração estabeleceu-se desde a abertura, com uma deliciosa fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro de André Mehmari. Ele fez o que um Mozart (mal comparando) faria se lhe dessem um tema desses para brincar. Literalmente brincar. Ora evoca o que chama de "nosso segundo hino nacional", o Carinhoso de Pixinguinha, ora mostra que também Beethoven integra nosso universo musical, na deliciosa "bandinha" com claros ecos do final da Nona Sinfonia. A rotineira abertura Ruy Blas, que Mendelssohn compôs a contragosto sobre o drama de Victor Hugo (que detestava), nada acrescenta à sua obra e também poderia estar ausente do concerto sem nenhum prejuízo.
As travessuras mehmarianas com o hino nacional ainda ressoavam nos ouvidos quando se seguiu uma daquelas performances difíceis de serem esquecidas. O pianista Lars Vogt não foi só preciso e detentor de uma técnica irretocável no concerto de Schumann. Isso não bastaria para uma interpretação bem-sucedida, já que a integração com a orquestra, neste caso, é tão sutil e cheia de armadilhas rítmicas que já derrubou muito pianista de prestígio internacional. Aqui, Tortelier mostrou como uma orquestra atenta é fundamental, sobretudo numa obra que, como dizia o compositor, "está entre o concerto, a sinfonia e uma grande sonata".
VIVE LA FRANCE
A segunda parte foi inteirinha francesa. Primeiro, o Prelúdio à Sesta de Um Fauno, obra-prima de Debussy sobre os versos de Mallarmé. São pouco mais de dez minutos de pura magia sonora, desde o início hipnotizante da flauta-solo. Palmas para Jessica Dalsant, excelente no papel decisivo que lhe cabe na peça, já que Debussy concentra na flauta solista essa maravilhosa e sutil "sucessão de cenários através dos quais se movem os desejos e sonhos do fauno no calor da tarde", em suas próprias palavras. No todo, maestro e orquestra proporcionaram em Debussy, quem sabe, o momento mais mágico da noite.
Público, sabemos todos, não perdoa. Quando se iniciou a explosão sinfônico-coral do Salmo 47, de Florentt Schmitt, três ou quatro assinantes saíram apressados. Pena. Esta é a segunda vez que se ouve Schmitt no Brasil (que eu saiba, só Ira Levin e a Orquestra Sinfônica de Brasília fizeram A Tragédia de Salomé no segundo semestre do ano passado).
Impactante em suas gigantescas massas sonoras, inclui um episódio central mais plácido e lírico, do qual participou a ótima soprano Susan Bullock (não perca amanhã, no concerto matinal da Osesp, Susan cantando Morte de Amor do Tristão de Wagner). Imensos blocos fortemente ritmados privilegiam os fortíssimos, em 30 minutos que atordoam, mesmo mais de um século depois de sua composição.
Como Richard Strauss, Florentt Schmitt viveu bastante, 88 anos, e também foi inicialmente saudado como compositor avançado, e depois como retrógrado e passadista. Em 1904, com este Salmo luxuriante e oriental ("compus como se fosse música para a coroação de um sultão otomano", disse em sua autobiografia), e três anos depois com Salomé, influenciou ninguém menos do que Stravinski, que o considerava genial. Mas sua adesão ao nazismo em 1933, a condenação pública que fez de Kurt Weill e a ativa adesão ao 3º Reich no negro período em que a pequena Vichy foi capital da França sob domínio hitlerista - tudo isso jogou-o no ostracismo. Até Stravinski voltou atrás, falando mal dele. Musicalmente, a noite de abertura valeu mesmo por Mehmari, Schumann e Debussy. E por conhecer melhor o controvertido Schmitt.
Sem dúvida acertada a escolha de Schumann para abrir os festejos dos 200 anos de nascimento da dupla Schumann-Chopin. A coincidência de datas traz desvantagem para o primeiro. Nesta avalanche de Chopin que vai virar tsunami já já, Schumann infelizmente tem tudo para posar de patinho feio nas comemorações. Até Lars Vogt rendeu-se, provocando muitos "ohs" ao tocar um Noturno como extra depois do concerto de Schumann.
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