''Pensei no meu filho e tentei pela última vez'', diz mulher
Balconista resgatada da enxurrada por voluntários fala do medo que viveu
A balconista desempregada Gisele Cristina Nunes, de 29 anos, viveu anteontem momentos de muita angustia. Ela quase morreu afogada em São José do Rio Preto, no interior, vítima da enxurrada que parou a cidade. Gisele contou ontem que pensou no filho, de 9 anos, antes de concentrar todas as suas forças para levantar o braço e pedir socorro, em meio as águas. A imagem correu o País. Ela havia ficado quase dois minutos se debatendo sob um carro que rodou na forte correnteza da Avenida Alberto Andaló.
"Não queria que meu filho, que perdeu o pai há dois anos e meio, também perdesse a mãe. Seria muito sofrimento para ele. Senti que estava morrendo, senti a agonia do afogamento, estava perdendo a força, quando pensei no meu filho e tentei pela última vez, depois de engolir muita água, levantar o braço", contou ontem Gisele.
Momentos antes de passar por tudo isso, ela tinha sacado R$ 600 do seguro-desemprego, dinheiro que foi arrastado pelas águas, assim como celular, bolsa, documentos e a moto que havia comprado em 36 prestações. "A última foi paga no mês passado", contou. "Agora ela está no mecânico e nem sei quando vou buscá-la. Mas o mais importante é a vida, é poder beijar meu filho", contou, chorando.
HERÓI
Um dos heróis do resgate de anteontem também é uma pessoa comum. Foi Thiago Mendes Joazeiro, de 23 anos, que trabalha de dia numa fábrica de joias e à noite como chapeiro numa lanchonete, quem socorreu Gisele.
Ele voltava do almoço e ia para o trabalho, quando parou num posto de combustível para esperar a chuva passar. Foi quando viu Gisele. "Nessas horas a gente não pensa no perigo, não vê os riscos", diz. Para ajudar no resgate, Thiago conseguiu uma corda com amigos que estavam no posto.
Após salvar a jovem, ele mesmo correu risco de morte. "A corda ficou presa na minha barriga e engatou na roda do carro, que rodou, me arrastando para baixo. Aí pensei: "ou vou ser rachado ao meio ou vou morrer afogado." Graças a Deus, quando eu já não tinha mais fôlego, os rapazes conseguiram puxar a corda e me salvaram", contou.
"A lição que fica é a de que a vida merece ser bem vivida. Nunca imaginei que pudesse acontecer algo semelhante comigo. Eu estava voltando do almoço, com minha motocicleta, e parei no posto para fugir da chuva. E veja no que deu", concluiu.
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