Pergunte ao mestre
A pedido do Caderno 2, cinco DJs contemporâneos de diversos estilos, que atuam na noite paulistana, fizeram perguntas para Seu Osvaldo
CLAU ASSEF: Jesus Luz, namorado de Madonna, como DJ é um bom modelo. Que conselho o senhor daria para ele se tornar um bom DJ?
OSVALDO: Ele teria de ir aos bailes, observar o pessoal dançar. Gostar de dançar um pouco pra ter o ritmo no corpo e saber que música mexe com as pessoas. Precisa também ouvir muita música, não ser radical de tocar só aquilo que ele gosta, mas o que o pessoal gosta de dançar. Ir às festas para também observar o que os outros tocam, como trabalham, como usam o equipamento de som. Porque hoje é muito moderno, né? A coisa mudou muito. No meu tempo era mais fácil agradar. A gama musical era maior. Tinha samba, samba-canção, rumba, chachachá, bolero, rock, fox lento: tudo isso entrava. Só não entrava o tango porque era difícil de dançar. Só entrava em festas de casamento, porque daí o pessoal gostava de brincar.
ZÉ PEDRO: Quando ninguém dançava na pista, qual música salvava o baile?
OSVALDO: Aí é que entra o feeling. Você observa os que ficaram dançando e tenta manter o estilo que está agradando a eles. Porque um casal dançando sempre motiva os outros. Aconteceu comigo num baile num clube na Casa Verde. Era uma noite de junho, estava frio, o pessoal tomando samba (que é Coca-Cola com pinga), mas o baile estava apático, não havia meio de esquentar. O que me salvou foi Elis Regina e Jair Rodrigues. Os curingas que eu tinha na mão eram Elis e Jair, o Chá Dançante, de Waldir Calmon, e as músicas mais rápidas de Ray Charles e da orquestra de Ray Conniff, que eu tinha sempre guardado para esquentar.
CAMILO ROCHA: Hoje ser DJ virou moda e tá cheio de gente que não é DJ "de verdade" colocando música nas cabines por aí, incluindo muitos atores, músicos de rock e ex-BBBs. O que o senhor acha disso?
OSVALDO: Nós vivemos numa época em que todo mundo quer ser DJ, jogador de futebol e artista. Mas nem sempre dá certo isso, nem sempre essas pessoas vão conseguir levantar a pista. O bom DJ já tem um feeling que vem com ele. Às vezes é preciso que leve anos de experiência, ir cultivando um repertório, indo devagar pra poder entrar. Por exemplo, já fui em bailes de Serato (em que o pessoal toca com notebook) e vi a pista esvaziar. Você tem os dois toca-discos simulando, mas é tudo música programada. Com CD e vinil é melhor, porque se aquela música não está boa, você já corta e coloca outra. No Serato, você até pode fazer isso, mas os meninos deixavam a música rodando lá e achavam que estavam abafando. Hoje tudo muda tão rápido e você tem de acompanhar se quiser estar na mídia. A gente tem de ser moderno também e versátil, mas fazer baile com MP3 não tem o mesmo charme de tocar LP. O vinil é muito bacana.
KL JAY: O senhor ainda compra discos de vinil? O que ouve hoje?
OSVALDO: O que ouço hoje é variado, desde as coisas antigas até a modernidade. Um que gosto muito é o Marvin Gaye. De vez em quando pego um LP, passo pra CD e fico ouvindo na minha cabine lá na frente da casa. Das cantoras atuais gosto de Paula Lima, até toquei música dela no último baile que fiz. E acho que Marisa Monte também tem umas músicas lindas. Ainda compro discos, sim. De vez em quando vou aos sebos procurar raridades. Ouço coisas que não conheço também e se eu gostar acabo comprando.
RENATO COHEN: De alguma forma, mesmo que inconscientemente, na época que fazia bailes, já lhe ocorria a ideia de uma "música gigante"? Ou seja, uma jornada musical que vai desde o começo da festa até o final?
OSVALDO: Não, naquela época não fazia isso. Acho que isso é mais compatível com os dias de hoje. Eu me programava na hora. Tinha um público que era assíduo, que estava sempre comigo e tinha os outros que variavam. Tocava a noite inteira sozinho, hoje é mais fácil juntar vários DJs e cada um fazer um set. Ao fim de dez anos começou a ficar monótono e cansativo tocar sozinho a noite inteira. Por isso parei.
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