Pichação, como o grafite, busca status de arte urbana
Grupos têm origens similares, mas entram em confronto em busca de espaço, visibilidade e respeito
O mesmo muro ocupado por grafite e por pichação, no mundo da arte de rua, é sinal de guerra. Expressa rivalidade entre duas manifestações urbanas que, há tempos, se estranham. Mas, ainda que a disputa pelo espaço tenha ficado mais acirrada no último ano - com invasões recíprocas de um estilo por cima do outro -, a trajetória dos dois movimentos segue semelhante. Primeiro, os grafiteiros saíram da marginalidade e conseguiram entrar para o rol de artistas. Agora, as letras pontudas dos pichadores caminham para esse status.
São três fatores que indicam o novo olhar sobre os rabiscos que, vale ressaltar, pela legislação são enquadrados como crime - todos já vivenciados pelos grafiteiros. O primeiro é o interesse de outros países pela pichação. A Fundação Cartier, de Paris, e o próprio governo francês já convidaram pichadores paulistanos para expor seu trabalho no circuito internacional. "Um outro termômetro", avalia Rui Amaral, artista plástico, um dos pioneiros nas técnicas do grafite e especialista em arte de rua, "é que hoje pensar em grandes exposições de arte urbana não descarta a pichação". E uma terceira novidade está na boca de quem picha. "Desde 1985, quando comecei a pichar, nunca tinha recebido elogio. Agora, já começo a ouvir", diz Zé Lixomania, que morou na Europa e tem a fama de ter conseguido espalhar sua marca por todas regiões de São Paulo.
A voz dos pichadores ecoa com mais força desde o final de outubro, quando o documentário Pixo, produzido por João Wainer e Roberto Oliveira, chegou ao público e retratou o cotidiano da pichação. "Pichar é crime, isso é certo mesmo com o debate se é arte ou não", afirmou Oliveira. "Mas, sem dúvida, é movimento cultural. Nem entre os pichadores é hegemonia de que é arte. Entre os mais novos, por exemplo, é mais instintivo do que consciente."
Djan Ivson - fio condutor do documentário Pixo e um dos que foram convidados para ir à França - diz que a demora para quem picha se olhar como artista é porque "os próprios pichadores estavam acostumados com o rótulo de vândalos". Segundo ele, a própria briga entre alguns pichadores com o grafite ajuda a explicar o reconhecimento recente. "Muitos grafiteiros tinham se apropriado das técnicas da pichação para serem artistas transgressores. Nós então pensamos: já que estão reconhecendo (os grafiteiros como artistas), que reconheçam os verdadeiros", completa Ivson, ao sustentar que ser visto como artista é só consequência e não objetivo.
Pichar não é mania contemporânea. Especialistas lembram que até as pinturas nas paredes das cavernas já eram pichações. Nesta geração, porém, quem picha normalmente representa outros exemplos de exclusão social. Com a marca, querem protestar, se divertir, fazer parte de um grupo, desabafar ou só ser visto. É fato que para alguns não há propósito algum, característica reconhecida até pelos pichadores.
O cineasta Lucas Fretin, que em 2002 levantou a bola para o assunto com o documentário A Letra e o Muro, diz que o fato de ser vandalismo não anula a pichação como arte. "Não se pode confundir arte com beleza. Escolher a pichação como arte ou não " é completamente arbitrário". José Guilherme Magnani, do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, lembra que muitas manifestações que posteriormente ganharam status de arte começaram de forma marginal, quebrando tabus; basta lembrar os vanguardismos do começo do século 20. "Não será diferente com a pichação", analisa. "Penso, contudo, que, no momento em que se tornar "acadêmica" certamente perderá o caráter de experimentalismo, anonimato, ruptura." Isso, os pichadores dizem não querer.
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